Sons da Canada Serrana

23 Setembro, 2015 0 Por Rui Manuel Sousa

ChocalhosA edição 2015 do “Chocalhos, Festival dos Caminhos da Transumância” que ocorre todos os anos em Alpedrinha e que promove o património material e imaterial pastoril da Beira Interior teve no seu cartaz um espectáculo musical muito sui generis, “Sons da Canada Serrana”.

A Canada Serrana é o nome que se dá ao percurso feito pelos pastores e os seus rebanhos entre a Serra da Estrela e o Baixo Alentejo com o objectivo de alcançar as pastagens de inverno nos campos de Castro Verde e Ourique. Neste vaivém secular, a transumância foi responsável por muitas trocas culturais que por certo foram decisivas na consolidação do património musical em ambos os lados. Foi com este espirito transumante que o espectáculo “Sons da Canada Serrana” se apresentou ao público revelando as culturas beirã e alentejana através dos seus ícones musicais, as violas, as adufeiras, os bombos e o Cante Alentejano.

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Os instrumentos de corda representativos destas duas regiões, a viola beiroa (bandurra) e a viola campaniça, estiveram a cargo de Alísio Saraiva e Pedro Mestre respectivamente, ambos se fizeram acompanhar de tocadores jovens o que demonstra que estes instrumentos estão a ser considerados pelas novas gerações. Estiveram em palco 2 tocadores de campaniça, 3 tocadores de beiroa, 1 baixista, 3 percussionistas e 1 flautista no total de 10 músicos. A estes músicos juntaram-se as adufeiras do Paul, o grupo coral de Beja, os Bombos de Lavacolhos e a associação Ocaia.

O espectáculo é uma imaginada viagem pastoril através da música tradicional, e começou com duas crianças coroadas com flores que transportavam um pau cheio de chocalhos pendurados evocando o papel principal que os rebanhos têm nesta viagem. As crianças chocalhavam à ordem de uma adufeira que aqui personificou o pastor encaminhando os rebanhos à sua vontade, entretanto a tradição oral foi descendo a serra e alcançou as vastas planícies do Alentejo, pelo o caminho cantou-se modas como a “Farreipeirinha” e a “Macelada” nas vozes das adufeiras acompanhadas pelos seus adufes e pelos tocadores da beiroa, e mais a sul “Eu ouvi um passarinho” e  “O altinho” cantados por Pedro Mestre ao som das campaniças. O grupo coral de Beja, dedicado ao Cante, – recentemente elevado a Património Imaterial da Humanidade, – e que realço pela qualidade global e pela média de idade dos seus integrantes que não ultrapassa os 25 anos, num dos momentos altos da noite cantou um tema popularizado pelos Ganhões de Castro Verde e também por Dulce Pontes, “É tão grande o Alentejo”:

(…)
“É tão grande o Alentejo, tanta terra abandonada!…
A terra é que dá o pão, para bem desta nação devia ser cultivada”.

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A parte final do concerto foi surpreendente pela forma e intensidade, Bitocas Fernandes o director musical deste projecto usou vários objectos dispostos no palco, por exemplo um regador ou uma vasilha de leite, sendo que a cada um desses objectos correspondia um determinado grupo musical, as adufeiras, o cante, as violas beiroas, campaniças e também as duas crianças que transportavam o pau com os chocalhos, cada um desses objectos era um “fader” de uma mesa de mistura virtual que ao ser movido para frente ou para trás informava o técnico de som a quantidade de volume com que cada um desses grupos chegava ao recinto. Mesmo no final do espectáculo quando todos os volumes estavam em apoteose eis que os Bombos de Lavacolhos surgem de surpresa juntando a batida grave e potente dos seus bombos a tudo o resto, gerando uma enorme erupção de música tradicional no vulcão que era o Palco Chafariz D. João V.

Terminado o concerto conversamos um pouco com Bitocas Fernandes que nos confidenciou o facto de apenas terem conseguido ensaiar todos juntos uma única vez na noite anterior, facto compreensível pela quantidade de elementos envolvidos. Contudo a forma como o espectáculo foi montado baseado em módulos de conjugação independente e pela forma inteligente de usar a mesa de mistura virtual para promover a interacção entre os módulos, permitiu que essa ausência de ensaios anteriores não fosse um factor decisivo na qualidade do mesmo. Soubemos também que a idealização do espectáculo e a selecção dos convites partiu da Camara Municipal do Fundão a quem desde já felicitamos pela iniciativa.

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Rui Manuel Sousa

Musico, entusiasta de cordofones que gosta de falar de música, da sua alquimia e do seu indelével sentido cultural.
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