[DEPOIS DE, Cair]

9 Março, 2016 0 Por Rui Freitas

Depois de Cair Feat II

A partir da obra Contra o Fanatismo, de Amos Oz, [DEPOIS DE, Cair], é uma peça tensa, de conflitos, de desencontros e de dor; de pecado e contrição, e até de violência. Mas é também um pedido, muitos pedidos de compromisso de renuncia e absolvição. No fim é uma peça de amor.

Amos Oz considera que vivemos uma era de limitação dualista, de escolhas entre o bem e o mal entre o certo e o errado, que acabam por levar ao fundamentalismo; que o amor, pode levar ao fanatismo, já que o fanático como o amante prefere sentir a pensar. É o amor que leva o fanático a agir, segundo acredita, mas é também no amor que pode estar a solução.

Depois de Cair III

Três personagens, – ou serão seis, ou sessenta? – digladiam-se em turbilhões de violência entre si e os seus medos, a sua raiva e os seus desejos, em conflitos de entrega e de resignação, de afastamento e de cumplicidade, de ciúme e de suspeita. São diálogos dramaticamente apaixonados ou monólogos arremessados de uns aos outros quase ininterruptamente. Sentenciam amor e o ódio com as mesmas armas, as vozes e os corpos e estes confundem-se – o amor e o ódio, as vozes e os corpos e os silêncios por vezes estrondosos. É um triangulo escaleno, que tão depressa se transforma numa reta ou em três pontos como de novo se une para inventar uma nova forma.

Uma peça plena de metáforas e alegorias: Cristo cruxificado, Adão e Eva, e o Jardim do Éden, passam, por artes de Wagner Borges e Tiago Bôto a ser de hoje como o eram de ontem. A culpa, a redenção, o sortilégio, a virtude a punição e a fuga, por esta ou qualquer outra ordem, pressentem-se em castigos e mutilações da alma, e nos diálogos sorridentes e carnais por vezes surreais e alucinados, ao ritmo autodestrutivo do hoje.

No século XVII, o inglês John Donne escrevia “No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main”.

Aqui é e deixa de o ser, uma coisa e outra, encoberto em fanatismo, desculpado na morte.

As personagens partilham o palco com uma Depois de Cair IIintensidade trágica que nos seus extremos encontra um humor funesto e uma crueldade sufocante e os atores, eles próprios, transfiguram-se ao ritmo das explosões energéticas dos eventos como se os eventos os dominassem.

Excelente entrega e notáveis prestações do trio Lago, Borges e Bôto a uma peça física e emocionalmente pesada e com um ritmo muito intenso. Borges a confirmar a sua enorme flexibilidade e territorialidade em cena; Lago e Bôto irrepreensíveis em segurança e pujança dramática.  O som e a luz acontecem no ambiente como que provocados por ele, – que enquadram e onde se enquadram bem – numa estética cénica coerente e equilibrada.

E no fim a morte. A mãe com o filho morto em seu colo, a sublime, a bela Pietá; uma causa ou um efeito, a reconfiguração do real sem filtros éticos, morais ou religiosos.

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Ou dizem-nos os autores como o diz o próprio Oz, que nos resta o compromisso da escolha entre a gloriosa perfeição da morte e a vida nas suas imperfeições?

[DEPOIS DE, cair] a partir de Amos Oz, tem Criação, Cenografia, Figurinos e Desenho de Luz de Tiago Bôto e Wagner Borges; Interpretação de Inês Lago, Tiago Bôto e Wagner Borges e Paisagem Sonora, Operação de Luz e Som de Rodrigo Bôto.

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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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