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Os Justos – Teatro da Cidade

28 Março, 2016 0 Por Rui Freitas
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A história é simples, um grupo de jovens anarquistas membros do Partido Socialista Revolucionário prepara cuidadosa e fervorosamente o assassinato do Grão-Duque Sergei Alexandrovich, Governador Geral de Moscovo e tio do Czar Nicolau II, que consumará lançando duas bombas para a carruagem onde este seguirá em direção ao teatro.

Encenada em, 1949, Os Justos de Albert Camus baseia-se em factos reais. Passa-se na Rússia Czarista de 1905, governada de forma despótica e desumana, e da qual segundo o partido, o Grão-duque é digno representante e imagem.

Cinco jovens, quatro homens e uma mulher, reunidos num apartamento de Moscovo onde já têm as bombas construídas, ultimam os pormenores do ataque, depois da chegada de Stephan Fedorov que acabara de sair da prisão.

Mais tarde na rua, no último momento do atentado Yanek Kaliayev (único nome verdadeiro em relação à História), aquele que deveria lançar a primeira bomba, vê na carruagem, duas crianças, sobrinhos do Duque, e não é capaz de executar a tarefa. O ataque ficou sem efeito e regressaram a casa onde os outros os aguardavam.

O núcleo da peça, é a discussão em volta deste fracasso.

Stephan Fedorov era irredutível quanto ao mérito da tarefa, que o “irmão” Yanek falhara.

Para aquelas crianças não morrerem, dizia, milhares de outras morrerão de fome nos próximos anos. Era emotivo e idealista e qualquer meio seria válido desde que o objetivo que era a revolução fosse atingido. Quer acabar com a tirania a qualquer preço, luta por um futuro de justiça e prefere esquecer a inocência que “através da revolução tomará um sentido mais alto”. Age por impulso alheio à tristeza que possa causar desde que o fim seja a libertação das gerações futuras.

Yanek Kaliaiev, defende que a revolução não pode perder o sentimento de honra. Vive segundo a razão, desvaloriza os fins em favor da causa, em nome do povo russo. Para este a incerteza no resultado, leva-o a questionar a desumanidade do ato e acredita que só ao fim de “de três gerações, várias guerras, terríveis revoluções” se confirmaria a razão e a legitimidade deste. Um terrorista deve ter sentimento de honra e as ações que causam dor e sofrimento devem ser repudiadas, “matar crianças é contrário à honra”, dizia.

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Já Nicolau Maquiavel quatro séculos antes em O Príncipe dizia que “os homens procedem de diversos modos para chegarem àquilo que lhes interessa, uns com respeito, outros com ímpeto”.

Camus acreditava que um homem só é livre se viver em justiça, e nesta peça fala-nos também de amor, o “amor ao mundo”. Durante a peça explora as posições antagónicas destes dois personagens (os restantes elementos do grupo sentem-se mais próximos de Yanek), mas o que se discute é muito mais do que a razão, já que o que movia os dois “irmãos” era o mesmo, acabar com a tirania e proporcionar a justiça da liberdade ao povo russo. Era a justiça do ato o que os aproximava e o amor que os afastava. É no conflito e também compromisso entre os sentimentos de amor e de honra e o sentido de justiça que a ética desta obra se expõe.

Ambos os revolucionários se dispõem a morrer pela revolução, mas Stephan porque ama a justiça acima da vida e despreza tudo o resto, morrerá de bom grado pelas razões da sua revolta, para impor a revolução ao mundo. Yanek o “Poeta”, que vê poesia na revolução e para o qual há honra no sentido da revolução, acredita na justiça, ama a vida e o mundo e morrerá, porque a revolução é necessária para dar oportunidade à vida.

Finalmente o atentado é levado a termo e o Grão-Duque morre. Yanek é preso e aceita a morte, do mesmo modo que recusa o perdão, porque “se não morresse, então sim seria um assassino”, assim é um justiceiro, não matou um homem, matou o despotismo e o Grão-Duque morreu por uma ideia e não por uma bomba.

Dora, a única mulher do grupo e a responsável pela construção das bombas, celebra a morte de Yanek e declara que ela será na próxima.
(e fico por aqui)

A peça é levada a cena no Teatro da Cornucópia pela novíssima companhia Teatro da Cidade, constituída por Bernardo Souto, Guilherme Gomes, João Reixa, Nídia Roque e Rita Cabaço. Este grupo juntou-se em 2015 após ter terminado a licenciatura na Escola Superior de Teatro e Cinema, um grupo que afinal já vinha a emergir como dizem. Convidaram para esta peça André Pardal e Ricardo Alas.

Demonstram em palco como em toda a construção cénica e desenho de luz, da sua responsabilidade, uma maturidade invulgar para um grupo estreante. A fantástica cumplicidade, a entrega e a leitura do espaço, saem de um compromisso coletivo que os movimenta e os escora. Num cenário minimalista onde se encontra tudo o que é necessário, evoluem com segurança, ocupando o espaço todo de que dispõem, visual e sonoro. Movimentam-se graciosamente, por vezes em ondas, e do palco sobressai um notável respeito pelos silêncios.

Identificam-se até certo ponto com o grupo de jovens personagens e com a pertinência do tema, que ao mesmo tempo os inquieta, – a legitimidade do ato terrorista.

Todos passaram pela Cornucópia depois do fim do curso em momentos diferentes, até que se encontraram em Hamlet. Consideram por isso uma honra estrear neste espaço com que sempre puderam contar e de cujos elementos tiveram todo o apoio. Todo o trabalho é coletivo e democrático e garantem que o grupo é para continuar. Para já, têm o próximo trabalho em mente e programa para um ano.

Quando lhes perguntei se nunca tiveram medo do peso e densidade deste texto, asseguraram-me que partiram para a peça com tanto entusiasmo, que só no decurso dos ensaios se aperceberam realmente da sua dimensão, mas nunca se intimidaram, – e ainda bem.

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Apesar da sua juventude – assumem que em nenhum momento esquecem os seus vinte e poucos anos e a diferença de leituras possíveis, comparativamente com pessoas mais velhas – fazem uma excelente leitura, séria e honesta e sem dúvida respeitosa, pondo afinal a juventude a seu favor, a favor da peça.

É uma bela encenação e um trabalho muito conseguido por uma companhia a estar atento.

Os Justos, tradução António Quadros.
Teatro da Cidade
 Encenação Criação Colectiva do Teatro da Cidade
 Cenário e figurinos Criação Colectiva do Teatro da Cidade com apoio da equipa do Teatro da Cornucópia
 Desenho de luz Criação Colectiva do Teatro da Cidade com Rui Seabra
 Interpretação André Pardal, Bernardo Souto, Guilherme Gomes, João Reixa, Nídia Roque, Ricardo Alas e Rita Cabaço.

 

 

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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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