Armanda Alves

À Conversa com Armanda Alves

8 Setembro, 2016 0 Por Luisa Fresta

No âmbito da exposição intitulada Versatilidades na Casa de Angola, em Lisboa, partimos à descoberta da artista junto com a obra, criadora e criaturas misturadas num primeiro de setembro marcado pelo bom gosto e pela originalidade.

Artes & contextosSabemos que se dedica à pintura desde sempre, mas começou a levá-la mais a sério a partir da exposição na Galeria Celamar, em Luanda, no ano de 2008. Como foi dar o salto para uma produção mais profissional, sair da zona de conforto e deixar de ser vista apenas pelos mais próximos, passando para uma exposição maior da sua obra e de si mesma?

Armanda Alves– Em 2007, sem que eu esperasse, surgiu um convite de uma amiga que me levou a pensar e a olhar para uma possibilidade futura no mundo das artes.

Nessa altura encontrava- me num grande momento de criação para mim e para os amigos. Houve toda uma mudança, não foi um processo fácil, tive apoio de família e amigos para aceitar o desafio e fiz então a minha primeira exposição em 2008, em Luanda. Mas não foi ainda aí que tomei a grande decisão de entrar no mundo das artes; isso aconteceu em 2011, quando decidi assumir e assinar Armanda Alves.

A&c- A propósito da Celamar, anagrama de Marcela (Marcela Costa, artista plástica angolana de renome¹), considera que a obra desta artista a influenciou ou inspirou na sua criação?

AA– Admiro imenso o trabalho da grande artista plástica Marcela Costa. Foi uma pessoa que me recebeu de braços abertos, percebendo toda a minha fragilidade, sendo a minha primeira exposição.

A&cSendo autodidata, como se processa a sua formação enquanto artista? Ou seja, para além da pesquisa constante que se adivinha, quais as suas influências mais marcantes, em Angola, em Portugal ou noutras latitudes, posto que a arte não tem fronteiras.

AA– É curioso e pode parecer estranho, mas não há pesquisa alguma antecipada. Pinto através da minha intuição, daí eu dizer que sou uma “fazedora” de formas.

A&C Já alguma vez se sentiu tentada a experimentar a escultura, a olaria ou a gravura? As formas das suas criações têm uma profundidade que sugerem essa tentação, que nos parece quase obrigatória.

AA– Até ao momento não, o meu fascínio continua sendo a pintura…Pintar é existir!!!

A&c- A figura feminina transparece claramente da sua expressão plástica. Há uma obra sua, A Pensadora, que reflete a essência da mulher africana, com tudo o que ela tem de maternal, de doce e de guerreira, aparentando sempre uma tranquilidade natural, quase que um certo alheamento. Considera importante valorizar a figura da mulher enquanto geradora de vida, as suas batalhas, o seu sofrimento e a sua resiliência face à adversidade?

AA-Sim, a mulher é um ser humano muito especial, tenho o maior respeito e carinho sobretudo pela mãe solteira. A mulher para mim é quase sempre uma eterna guerreira. Como diz, e bem, a vida humana brota do ventre da mulher. A propósito da criação do Pensador, perguntei a mim própria, porque não uma Pensadora? E foi na verdade nesse minuto que decidi homenagear a mulher africana, sendo que o Pensador é uma figura simbólica de África.

A&c- Quais as memórias que traz da sua terra natal (Calulo, Angola) para a sua arte? É um processo consciente ou esses contributos surgem espontaneamente?

AA– Saí de Calulo numa idade precoce, não tenho memórias nenhumas.

A&c- Faz sentido para si usar a arte como instrumento de transformação da realidade?

AA-Faz imenso sentido, a arte une pessoas, desperta emoções, alimenta e rejuvenesce a alma, há o encontro com o belo, o fascínio, o êxtase, para mim contemplar qualquer tipo de arte é um encontro comigo própria e com o Universo.

A&c- Sobre a escolha da paleta de cores, notamos um claro predomínio dos tons térreos (castanhos, vermelhos, dourados); essa opção tem raízes numa estética própria ou acarreta algum simbolismo?

AA– Durante anos pintei com todas as cores do arco-íris, fazendo grandes mesclagens, algo que me deliciava. Em Novembro de 2011, do nada, começo timidamente a fazer um trabalho, devagar, um pouco a medo, fui ousando cada dia um pouco mais, trabalhando com os tons terra até aos dias de hoje; digamos que hoje se reconhece um trabalho meu pelos tons.

A&c- Nesta exposição (Versatilidades), qual o critério de seleção para as obras expostas? Existe um fio condutor entre elas?

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AA– Sim, existe sobretudo a cor, na realidade é como se estivesse a fazer uma coletiva de mim própria, mostrando várias técnicas de materiais.

 

 

¹ Mais sobre Celemar em:
http://angola-luanda-pitigrili.com/who%E2%80%99s-who/m/marcela-costa
http://www.redeangola.info/marcela-costa-mostra-retalhos-de-angola/

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Luisa Fresta

Escrevo crónicas, contos e poesia. Ensaio palavras entre linhas e opino sobre cinema, preferencialmente africano e lusófono. Semeio letras, coleciono sílabas e rumino ideias.
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