Miguel Barros Sulcos/Furrows

Miguel Barros Sulcos/Furrows

7 Abril, 2017 0 Por Rui Freitas

Miguel Barros celebra 30 anos de carreira com Sulcos/Furrows no M.A.C.

 

Miguel Barros

Depois de expor e se expor na linguagem que melhor conhece, em galerias, museus, palácios, fundações e feiras de arte, da Ericeira a Luanda; depois de percorrer o país do Porto a Monsaraz e o mundo do Reino Unido à Austrália, de Toronto a Nova Deli, Miguel Barros, representado um pouco por todo o mundo em diversas coleções públicas e privadas e três dezenas de vezes premiado pela excelência da sua obra, parou em Lisboa, no MAC, para celebrar os trinta anos de uma carreira que inicia a cada novo passo.  
Além de Lisboa onde nasceu, viveu no Brasil, em Angola, na Índia e presentemente no Canadá.

 

Artes & contextos O que o chamou à Índia?

Miguel Barros – Um acaso, nada programado, ou muito pensado. Surgiu em compensação a uma viagem que tinha feito
anteriormente através duma agência de viagens, e que correu tudo muito mal, e então, ofereceram-me uma viagem à minha escolha para qualquer parte do Mundo, e escolhi a India por me parecer improvável um dia qualquer ir lá. Como vê nada de especial, apenas um acaso feliz, e um facto positivo que alterou a minha vida!

A & c E o que o “obrigou” a regressar lá?

M.B. – Fiquei tão enamorado pela India, que será difícil verbalizar exatamente o que senti; é como se quisesse que eu lhe explicasse o que é sentir o bem-estar físico e emocional de alguém que se apaixona e se perde por outro…

 

… mas entretanto, passou novamente por Lisboa para imprimir Sulcos / Furrows na história da arte contemporânea.

 

Sulcos 4 Óleo s Folha ouro prata cobre s papel

Miguel Barros – Sulcos 4 Óleo s/Folha ouro prata cobre s/papel

 

A cor e a sua luz inundam o espaço num pacto com formas abstratizadas que se nos apossam do olhar revelando a beleza que é efeito e causa, e o fluxo irresistível das mensagens que são diferentes a cada olhar como se o olhar iluminasse a cor na descoberta de novos matizes, ou de um novo brilho.

A sala é uma obra composta de obras, um texto extravagante de frases soltas, esteticamente poético.

Há gestualismo e serenidade, paz e intransigência, cada uma no seu momento e que se completam num diálogo cúmplice onde “cada quadro é como se fosse a continuação do quadro anterior”.

A transcendência abstrata das formas adivinhadas em cada obra encontra no equilíbrio tonal argumentos exógenos do todo significante impresso por uma gestualidade conciliada e coerente.

As formas denunciadas pelas manchas de cor são rasuradas em sulcos na matéria base, como que arrancados a uma existência primitiva, básica que se descompõe e recompõe aos nossos olhos e se acomoda na nossa mente.

Por detrás dos mantos cromáticos surgem invariavelmente signos que parecem reclamar a sua oportunidade para saltar das telas com o brilho da coerência e estatuto de caracteres de uma escrita vigorosa escondida por detrás da harmonia cromática eminentemente sólida.

A & c – Como disse, partiu para este Furrows de um objeto de infância, de uma recordação. A suas obras são também fruto de imagens interiores, ou privilegia o que o rodeia?

M.B. – É verdade, quando comecei este projeto Furrows, não sabia como resolvê-lo, andei literalmente às aranhas, mas um dia descobri um pequeníssimo trabalho que fiz na pré-primária, tinha eu 4 anos, e encontrei essa maravilhosa e minúscula relíquia dentro do meu livro de bebé, e estava encontrada a solução para este meu trabalho de pintura. Toda a minha pintura é consequência da minha vida, das minhas experiencias e de todas as mais remotas memórias de mim com os outros; se quiser o meu trabalho é a causa efeito daquilo que sou num só todo…

 

Miguel Barros – Sulcos Óleo s/Folha ouro prata cobre s/algodão

Miguel Barros – Sulcos Óleo s/Folha ouro prata cobre s/algodão

 

A & c – A sua inspiração varia entre o urbano, o naturalista e o metafísico. Sente mais presente alguma destas vertentes ao longo dos anos?

M.B. – Toda a minha pintura representa as diversas vertentes da vida, da minha vida, claro está, sem qualquer pretensão ou julgamento. Interessa-me a universalidade de tudo, e tudo está implicitamente interligado, todos nós vivemos numa simbiose e osmose constante e natural, vivemos todos num lugar único e limitado, todas as nossas ações têm consequências em tudo e em todos os outros, imagine o tal “efeito borboleta” e assim ter-se-á muito mais facilmente a consciência nítida de que interagir seja de que forma for, terá sempre um efeito qualquer algures por aí… por isso lhe digo que a minha pintura envolve de certa forma isso tudo, lugares, gentes, asceses, natureza, nós todos.

A par da luz, o azul, o amarelo e o vermelho, são o princípio de tudo na imagem e desta vez, neste diálogo, a sua predominância são o que para lá dos sulcos mais encobre os murmúrios que o Miguel vai deixando sair das telas, dos panos, do papel e da seda que lhe serviram de suporte, de altifalante.

 

Miguel Barros Sulcos 9 Óleo s/Folha ouro prata cobre s/algodão

Miguel Barros – Sulcos 9 Óleo s/Folha ouro prata cobre s/algodão

 

A & c – Furrows tem algo de transgressivo. A transgressão é uma parte fundamental da expressão artística?

M.B. – Acha que sim? Que curioso, nunca tinha pensado nessa perspectiva, mas transgressivo porquê? Porque sai da norma formal habitual de tela e grade? Bom, deixe-me pensar só um bocadinho sobre isto e respondo-lhe já… Não querendo de maneira alguma ser um potencial pretensioso, nunca me passou pela cabeça ser transgressivo no meu trabalho, nunca pretendi isso, nem pretendo. Acredite que as soluções de apresentação dos meus projetos têm por detrás um outro conceito, o do Design, “Forma/Função”, e pensar como os posso criar de maneira a que os possa transportar por esse Mundo fora com o menor volume possível para evitar custos e outros incómodos. Na verdade comecei a magicar esta formula quando ainda vivia em Luanda, e como poderia eu trazer os meus quadros a Lisboa para as exposições, e a realidade é que ao encontrar esta solução comecei a gostar muito do efeito, mais ou menos caótico com que os quadros ficavam, quase esculturas, e esta foi a razão pela qual desenvolvi estas técnicas de pintar, e pensar também, como transporta-los, e embala-los como se fosse carne fechadas em embalagens a vácuo…tudo se tornou possível desta maneira e eu fiquei, e estou radiante com esta coisa que em vez de me condicionar, me alargou a imaginação!

A & c – Depois de terminar uma obra parte para a sua descoberta ou sabe tudo o que ela diz?

M.B. – Nunca sei muito bem, às vezes até acabo um quadro e descubro que afinal a posição dele está errada, e a solução é vira-lo de pernas para o ar, e percebo que estive sempre a construi-lo invertido, mas esse é um jogo que me agrada e me faz sentir bem, dá-me gozo. Quando me perguntam o que é isto, ou aquilo, que pintei, respondo sempre a verdade dos factos, e digo, os meus quadros estão cheios de pessoas a conversarem entre si e a viverem uma vida melhor que a realidade, há quem não veja ninguém neles, mas a verdade é que mesmo no universo mais abstrato do meu trabalho eu vejo lá as pessoas, por vezes num verdadeiro forrobodó. Adoro saber o que as pessoas sentem e veem ao olhar para um quadro meu, gosto, sabe, não sei explicar bem porquê, mas interesso-me pelas suas interpretações e aprendo imenso com as suas leituras e sensações.

 

Miguel Barros - Sulcos 15 Óleo s Folha ouro prata cobre s algodão

Miguel Barros – Sulcos 15 Óleo s Folha ouro prata cobre s algodão

 

Há sempre algo mais para lá da primeira saudação. A riqueza das interseções cromáticas apela a uma aproximação para nos sussurrar os segredos que quase oculta na miríade de signos ancorados por detrás do primeiro olhar, são um festival semiótico que provoca no observador uma reconstituição do primeiro diagnóstico e um apelo irresistível a outro e mais outro olhares mais profundos, mais atentos baralhando a perceção e recompondo os sentidos.

 

A & c – Olhando para a diversidade de suportes para as obras desta exposição, escolhe os materiais, ou são os materiais que o escolhem?

M.B. – Escolhemo-nos! Gosto de utilizar materiais que já foram uma outra coisa qualquer, tiveram em tempos uma outra função, materiais que pertenceram a pessoas e que estão impregnados dessas vidas de outros, e depois, pego neles, e reinvento as minhas historias de cor imaginando o que já passaram e ouviram, e quem os tocou, e o que será feito dessas pessoas, muitas que já partiram para outros universos e tempos…por vezes parece que alguns deles (materiais) estavam ali guardados à minha espera para os ressuscitar, para os transformar, como se duma crisalida se tratasse…bom, como vê, aqui lhe falo das minhas tantas fantasias, mas que para mim são efetivamente reais, porque fazem parte de mim, e eu delas.

 

Miguel Barros – Sulcos 1 Óleo s/Folha ouro prata cobre s/palel

 

A & c – Concorda com os filósofos escolásticos quando diziam que nada chega ao entendimento sem que antes tenha estado nos sentidos? E o inverso?

M.B. – Como tornar possível uma consciência sem antes a sentirmos e experimentarmos para se torne consciente? Os sentidos e o entendimento das coisas, o instinto, o desejo, o inconsciente, fatores que confrontamos sempre, seja em que forma de expressão for, e depois a nossa inteligência emocional, que nos trabalha e desenvolvemos…

A & c – Furrows é mais uma bolinha no calendário da sua vida ou é mais do que isso? O calendário todo?

M.B. – Furrows, é mais uma página no meu Diário que vou escrevendo em forma de pintura. Mais um momento meu com os outros, uma referencia para mim, um “marco” que alcancei e que partilhei. Mais uma conquista que nasceu dum sonho e que materializei com forma, matéria e cor, e alma, a minha.

A & c. – Se ela necessitasse, com que obra musical abrilhantaria esta exposição?

M.B. – Não poria música, mas sim sons da Natureza, sons que ouvi em tempos gravados pela NASA do som que a Terra faz, o som do Universo!

A & c – O que o chamou ao Canadá?

M.B. – Um acaso! Procurava um lugar para viver em paz e tranquilo, um lugar que pudesse pensar que poderia ficar para envelhecer…

A & c – Lisboa será sempre um ponto de partida?

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M.B. – Lisboa é para mim o meu ponto de fuga da partida e chegada; mesmo que não vá lá com frequência, na minha alma preciso desse cais que me fez partir para o Mundo, e que me acolhe sempre no meu regresso, entre as colunas do “Cais das Colunas”…na minha emoção e fantasia, penso-a sempre desta forma, numa espécie da minha essência e o meu porto de abrigo imaginário…e quando tenho muitas saudades, sublimo-as a pintá-la, e desta forma passeio-me pelas suas ruas, becos e gentes, entre as minhas memórias que cuido bem.

Sulcos / Furrows Exposiçãode Miguel Barros no M.A.C. Movimento Arte Contemporânea até 29 de abril

 

 

Rui Freitas
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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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