Cuidar dos Vivos

Cinema – Cuidar dos Vivos

22 Junho, 2017 0 Por Luisa Fresta

Cuidar dos Vivos

 A realizadora francesa Katell Quillévéré traz-nos uma adaptação do romance homónimo de Maylis de Kerangal, publicado em 2014, bem recebido pela generalidade da crítica e pelos leitores, e adaptado igualmente para teatro.

Nesta versão cinematográfica a história é contada de forma hiper-realista: o espectador segue o trajeto de um coração potencialmente destinado a transplante, que permite viajar através da vida, da morte e de uma certa forma de ressurreição num corpo novo. A dada altura a realizadora evocava numa entrevista questões éticas em torno do tema da doação de órgãos (ponto fulcral desta obra), e o facto de simbolizar uma forma igualitária de gerar e perpetuar vida, alheia a qualquer tipo de preconceitos, raciais, etários ou de género, visto que a compatibilidade entre dador e recetor é aferida a outro nível. Sendo a doação anónima, uma vez que os dossiers clínicos dos envolvidos estão protegidos pela mais estrita confidencialidade, a curiosidade previsível de uns e outros esbarra nestas fronteiras éticas inegociáveis. Apenas o espectador, no caso desta ficção, pode conhecer todo o percurso de um órgão que poderá permitir que um adolescente, vítima de um trágico acidente, faça renascer uma mãe de família quinquagenária condenada por uma cardiopatia degenerativa a uma vida limitadíssima e com baixas expectativas.

Cuidar dos Vivos

Neste filme há um coração protagonista e tudo gira em torno da viagem e do potencial, real e simbólico, deste órgão.

Simon (Gabin Verdet) é um jovem que se reúne de madrugada com dois amigos para apanhar as primeiras ondas da manhã. A maneira como salta da varanda de casa da namorada parece já prenunciadora de uma ação iminente; o percurso pelas ruas silenciosas é feito em bicicleta, de skate e finalmente numa carrinha, onde estão já os três amigos. Todo o filme é minucioso, os diálogos são escassos, mas precisos. O apelo do mar parece irresistível e as pranchas de surf cortam as ondas como que deslizando e rasgando ao mesmo tempo. Mar e céu misturam-se na visão global do espectador; há uma profusão de ondas, de bolhas, de redemoinhos e de nuvens que confundem todos os tons de azul em plena madrugada. O corpo de Simon balança-se dentro do mar numa dança premonitória da tragédia. No entanto os três saem ilesos dessa escapada noturna e apenas no regresso surge o acidente no qual Simon, de 17 anos, fica entre a vida e a morte. O desfecho é um traumatismo craniano que culmina na morte cerebral do jovem e a consequente tragédia que se abate sobre os pais e a namorada.

Assim, o coração de um jovem saudável cuja vida é colhida abruptamente torna-se na única hipótese de sobrevivência de uma brilhante violinista, com uma vida amorosa pendente, tal como a carreira, por via da doença incapacitante: uma mãe (Claire, interpretada pela atriz Anne Dorval) que, tal como a mãe de Simon, tem dois filhos (Maxime e Sam) com quem construiu um castelo de mentiras piedosas no qual assenta um equilíbrio familiar feito de ternura e precaridade emocional.

Todo o trajeto deste coração e a gestão de órgãos e emoções passam pelas mãos e pelas palavras assertivas e humanas do médico experiente (Bouli Lanners), cuja missão é essencialmente cuidar dos vivos, e do jovem especialista, fascinado pelo canto dos pintassilgos do Magrebe (Tahar Rahim), que consegue estabelecer um clima de paz e de empatia capaz de mitigar o sofrimento dos pais mergulhados na revolta e na estupefação causada pela dor. A estes pais cabe a difícil decisão de refletir, para lá da dor sangrenta da perda, quanto ao destino a dar aos órgãos de Simon, num espaço de tempo forçosamente limitado pelos condicionalismos da ciência.

Cuidar dos Vivos

Emmanuelle Seigner é absolutamente convincente no papel de Marianne, mãe de Simon, com a contenção necessária e olhar transparente, prestes a resvalar para o precipício.

Há pormenores porventura marginais que são insistentemente realçados neste filme mas permitem ter uma visão objetiva de detalhes do quotidiano, para além do drama e da tensão evidente.

Segurança na estrada: Simon não usava cinto de segurança: este detalhe é referido mais do que uma vez, visto que os dois companheiros que levavam o cinto posto ficaram apenas com fraturas de menor gravidade; por outro lado, o condutor estava visivelmente cansado e teria adormecido ainda que por poucos segundos. O piso gelado agravou o nível de risco, que se revelou fatal, pois presumivelmente a condução não foi adaptada a esse cenário.

Riscos: viver comporta, por si só, uma infinidade de perigos, com os quais convivemos pacificamente ou nos quais resvalamos diariamente de forma inelutável. Se alguns deles resultam de escolhas, mesmo que induzidas pelas circunstâncias e/ou pela envolvência social e familiar, como o ato de fumar ou de ingerir álcool, ou a prática de desportos radicais, outros são inerentes à condição humana e supõem um certo fatalismo contra o qual não existe proteção segura.

Visão economicista da Saúde: a humanização do atendimento hospitalar é claramente afetada pela redução de pessoal justificada pela necessidade de conter despesas. O problema não é novo nem local, nem a solução é inovadora; apenas é aqui evidenciado de forma simples e convincente pela personagem de Monia Chokri (a enfermeira Jeanne).

Todas estas ideias são secundárias mas ajudam a manter de pé a trama principal e no final acabam por reagrupar-se para fazer sentido, como um todo, engrossando o corpo de um rio que se chama vida e que nos diz respeito a todos.

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É possível curar os vivos respeitando o legado dos mortos, material e espiritual, e ritualizando todos os pequenos percursos de vida e de morte. É possível considerar a pessoa humana como única, fruto de uma história pessoal e de um conjunto de vivências irreptíveis. Esta é a proposta de Katell Quillévéré, que nos parece inteiramente credível e digna de reflexão.

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Luisa Fresta

Escrevo crónicas, contos e poesia. Ensaio palavras entre linhas e opino sobre cinema, preferencialmente africano e lusófono. Semeio letras, coleciono sílabas e rumino ideias.
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