Formas outras da língua portuguesa - Álvaro Lobato de Faria

Formas outras da língua portuguesa – Álvaro Lobato de Faria

11 Junho, 2017 0 Por Álvaro Lobato de Faria

 As Crónicas, as Artes Plásticas e a Internet

Intervenção de Álvaro Lobato de Faria na conferência As Crónicas, as Artes Plásticas e a Internet apresentada pela PNET, iniciando um “Ciclo de diálogos sobre as novas formas de comunicação baseadas na Internet”

 

Para correctamente abordar o tema proposto, tería que me reportar a uma época relativamente concisa ou, separadamente, a épocas ou patamares de entendimento de Arte e Cultura, de Língua e Cultura, de Língua Portuguesa e Arte, uma vez que a expressão do conhecimento não pode esgotar-se ou ficar estática numa única forma de linguagem, tendo em conta que cada linguagem traduz, modos próprios de raciocínio.
Contudo, pelas limitações de tempo a que esta prelecção está sujeita, procurei abordar de forma concisa os pontos mais relevantes que vos pretendo transmitir.

A disseminação cultural a nível internacional é um factor determinante para a afirmação de uma língua, no entanto, até hoje, nunca Portugal teve capacidade de penetração cultural no estrangeiro de forma relevante a não ser em áreas específicas, mas minoritárias, como a Música, a Literatura e as Artes Plásticas.

Álvaro Lobato de Faria, Foto ©Rosa Reis – “Percepção do Olhar”

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As inúmeras modificações nas formas e possibilidades de utilização das Artes Plásticas enquanto linguagem, são testemunhos incontestáveis das mudanças sociais, culturais, políticas e tecnológicas que atravessaram o Mundo, e de modo particularmente acelerado nos últimos 30 anos, quando os equipamentos informáticos e as novas tecnologias de comunicação passaram a fazer parte de forma mais intensa da vida quotidiana.
Não que as Artes Plásticas contribuam por si e em si para a divulgação da Língua Portuguesa; antes, a divulgação das artes plásticas contribuirá para uma maior divulgação e entendimento da cultura portuguesa e consequentemente, como é óbvio, da Língua Portuguesa.
O património histórico, natural, arquitectónico e artístico, os costumes e a cultura, são as formas outras da Língua Portuguesa capazes de despoletar a curiosidade de quem as frui.

E de facto, só o conhecimento da nossa cultura pode potenciar o interesse pela nossa Língua, na medida em que tudo o que chama a atenção para Portugal aumenta o interesse pela Língua Portuguesa: ninguém lê Fernando Pessoa por gostar de Português mas poder-se-á aprender Português para melhor ler Fernando Pessoa, sem os condicionalismos das traduções.

Mas não se pode exportar uma língua, tentando convencer os receptores das vantagens que o seu conhecimento acarreta. É inútil.

Mesmo sendo meritórios os esforços nesse sentido, mais inútil se torna na actual sociedade de informação em que o impacto das novas tecnologias já mostrou ter a força e poder suficientes não só para construir mas também para devastar.

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A globalização e os seus métodos, têm-nos conduzido a uma enorme confusão de valores e conceitos que levam os artistas a modelos e formas de pensamento alternativo que os conduzam a uma sustentabilidade do mundo, face a uma globalização indiferenciada e a um sistema de vida cultural, económico e ambiental que se vem mostrando pouco consistente.
Apesar dos pesares, move-me a convicção de que a Internet é hoje uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo que, quando bem aproveitada, se pode tornar um meio eficaz de disseminação cultural.

O facto de reunir num só meio diversas formas de expressão, tais como o texto, o som e a imagem, a par da rapidez da veiculação e da flexibilidade linguística, confere à tecnologia multimédia actual um lugar de destaque na nossa cultura.
Regra geral, podemos dizer que a Internet disponibilizou uma outra forma de experimentação ao nível das Artes Plásticas, bem como uma outra forma de chegar ao espectador-visitante e isto parece-me válido para todas as formas de arte ligadas ao plano das artes visuais, quer seja a pintura, a escultura, a ilustração, a fotografia ou o cinema.
Neste sentido, para além das Artes Plásticas, poucas serão as formas para melhor compreender e experimentar a diversidade e o que a Humanidade tem em comum, induzindo não só a uma consciência cultural colectiva mas também a um crescimento pessoal individualizado.

E se no caso da Literatura não é possível estabelecer qualquer tipo de comunicação efectiva sem um código vigente comum ao emissor e ao receptor, no que às Artes Plásticas diz respeito este código de entendimento mútuo é bastante mais abrangente, funcionando ao nível das emoções enquanto transmissores de mensagem.

Compreendidas pela sua potencialidade de criar novas formas de construção de sentidos, capazes de despertar o interesse para a Língua e Cultura Portuguesas, as Artes Plásticas poderão converter-se num novo alfabetismo comum a emissores e receptores, pela pura necessidade de uma comunicação eficaz através de um canal de comunicação global – a Internet – que se vem tornando fundamental para compreender a cultura das sociedades actuais

Desta forma, embora não possa nunca substituir-se ao prazer da fruição física e matérica de uma obra-de-arte ou de um objecto estético, parece-me essencial que a Internet continue a evoluir no sentido de potencializar e sensibilizar as sociedades e culturas actuais a irem ao encontro físico e intelectual da linguagem universal que nos transmitem as Artes Plásticas.

Álvaro Lobato de Faria

Álvaro Lobato de Faria, Foto ©Rosa Reis – “Percepção do Olhar”

A Internet proporciona um forte complemento a qualquer pessoa e em qualquer lugar do mundo, pela oportunidade de participar numa rede de comunicação onde pode expandir o seu conhecimento e curiosidade sem necessidade de partilha de um código linguístico específico.

A convergência destes dois desenvolvimentos – um novo “alfabeto” imagético e a sua disseminação global enquanto linguagem universal – permitirà às Artes Plásticas a conquista da permanência na vida quotidiana, motivo pelo qual é cada vez mais premente a inclusão da prática artística nos programas educacionais não apenas para aqueles que pretendem seguir a via artística mas igualmente para todos os outros que, não utilizando a arte como forma de vida, irão ter de interpretá-la e interagir com ela de um modo que simplesmenste não existia hà 10 anos atrás.

Mas dadas estas vantagens, permitam-me recordar dois pontos importantes: em primeiro lugar, e como referi anteriormente, ainda que a multimédia possa actuar como tecnologia auxiliar de democratização da Arte enquanto linguagem universal, não pode nunca substituir a experiência sensorial que se desenrola na presença física de uma obra-de-arte.
Daqui concluímos que, embora a rede Internet seja de facto uma fonte de conhecimento, não poderá fazer chegar ao internauta/fruidor a forma exterior da criação artística, no que respeita fundamentalmente à pintura e escultura (sublinhe-se os sentidos, a dimensão, a cor, a textura, o cheiro, o feeling in loco que uma obra transmite).

Assim, com o contacto único com a Internet teremos apenas uma realidade virtual que serve de facto os fins de mercado, mas não a fruição total da obra de arte, podendo-se criar um equivocado estatuto da Arte.
Em segundo lugar, devemos sempre preocupar-nos com o destino das palavras, património de valor incalculável num mundo em que som e imagem surgem cada vez mais de forma aleatória e sem controlo.
Evidente se torna que o que pode ser verdade para a linguagem das artes plásticas, o não é para as linguagens escritas, descritivas, ficcionais ou poéticas, pois que a criação literária, a sua formalização e organização de conteúdos em nada se altera na sua dimensão estética quando divulgada on-line.
Explorar e dominar as várias formas de linguagem é fundamental para identificar as diversas linguagens formais e informais que existem, decidindo quando o texto ou a imagem se nos oferecem como melhor veículo para lograr a comunicação.

Numa altura em que a taxa de analfabetismo atinge um quinto da população mundial adulta, deseja-se cada vez mais que o cidadão do futuro seja completamente alfabetizado passando essa alfabetização também pela Arte.

Para que isso suceda, as Artes Plásticas, entre outras, devem ser consideradas enquanto matéria básica de formação tal como a leitura, a escrita e a matemática.

Desenvolver capacidades de desenho e destrezas de alfabetização gráfica que permitam encarar as imagens enquanto canais de comunicação, é uma necessidade premente no sistema de educação nacional.

Adaptável às diversas mudanças comportamentais da sociedade, a criação artística enquanto linguagem cognitiva que se baseia na percepção e conceptualização do Mundo, é das faculdades mais flexíveis e plásticas de todas quantas são geradas pela criatividade humana.

Desta forma, quanto mais cedo compreendermos que as formas, linhas e cores comunicam ideias e informações, mais depressa a Arte se converterá num veículo fundamental para compreender a cultura dos povos.
Face ás novas tecnologias, é de frisar que mesmo sendo de manipulação acessível às populações, exigem estruturas de conhecimento básicas anteriores, sem as quais não é nítido que se chegue a qualquer resultado positivo.
Atendendo ao que foi dito, coloco algumas questões/reflexões como a da identidade de uma cultura portuguesa e quais os seus modos de integração neste mundo global que agora habitamos?
Em que estádio de entendimento das coisas e do mundo nos encontramos actualmente?
Que herança cultural tem o nosso povo que permita o acesso fácil a níveis de conhecimento minimamente exigidos e exigíveis?
Haverá, de facto uma verdadeira cultura portuguesa, solidamente estruturada, passível de não ser submersa por esta globalização e “massificação” ainda mal digerida?
Ou estaremos todos a contribuir para a total subalternização do que resta da cultura portuguesa entrosada já, e bem, com todas as influências que se têm gerado ao longo dos séculos?
Atentemos que não estou a fazer qualquer apologia de um nacionalismo doentio.
Antes questionemos o que defendemos e porquê.

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Álvaro Lobato de Faria
Director Coordenador do MAC – Movimento Arte Contemporânea

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Álvaro Lobato de Faria

Diretor coordenador do Movimento Arte Contemporânea, professor, faço palestras, conferências, curadorias e crítica de arte em Portugal e no estrangeiro com incidência no mundo lusófono.
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