João Duarte – Escultor Medalhista

24 Agosto, 2017 0 Por Álvaro Lobato de Faria

João Duarte, “tudo no tempo certo”.

Com uma enorme convicção e coerência, João Duarte, desenvolve a sua obra, como quem respira, apresentando-nos algo que, num relance de raiz tecnológica, numa invasão total do belo, transcende a natureza da matéria, mostrando-se, este grande escultor, um apaixonado pelo seu trabalho e esta e a sua principal qualidade como artista e como grande executor do que é belo e nos fascina.

Para participar da proposta estética e intelectual que João Duarte nos faz, há que superar um primeiro nível de análise, pois o que ele manifesta através da sua escultura, são ideias, pensamentos e conceitos plenos de paixão e energia, contundentes na sua construção, no seu tratamento e morfologia. Uma filosofia da existência.

Quando nos idos 1997 me foi apresentado o seu dossier eu esperava de um medalhista medalhas. Comemorativas, de grande realismo e com uma distribuição com grandes critérios de claros-escuros, valorizando deste modo a forma redonda das medalhas, que normalmente se encontram no mercado. Em face do que vi, fiquei imediatamente liberto dos conceitos clássicos do que vulgarmente chamam “medalha”, para acrescentar a denominação de “objecto” àquelas peças.

Homenagem ao Professor Escultor João Afra - 34 Anos de Ensino Medalhística (1997)

Homenagem ao Professor Escultor João Afra – 34 Anos de Ensino Medalhística (1997)

Como um verdadeiro microcosmo, a obra do João Duarte estabelece-se como uma realidade fascinante, diversa da arte contemporânea, possuidora de tempos, espaços, regras, valores e objectivos específicos.

É este o sentido, a forma e o modo como o João Duarte interiorizou e desenvolveu o papel da medalha como Objecto de Arte, transformando o conceito tradicional de medalha num outro – a medalha como Objecto Lúdico. Objecto de conhecimento na relação que estabelece com o fruidor que dele participa, captando-o segundo as formas adquiridas à priori e as categorias inatas ao intelecto.

Com relação ao estudo de um amplo conjunto de comportamentos que inclui as primeiras experimentações plásticas, João Duarte pode ser considerado como o primeiro a encetar esforços no sentido de estabelecer uma praxis no campo da medalha contemporânea, dependente, exactamente, da modalidade ou característica lúdica que lhe serve à argumentação.

Estava-se no final da década de 70 na então Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, à cidade de São Francisco. Emergia um esforço encetado pelo Professor Escultor Euclides Vaz no sentido de incrementar a medalha como tecnologia da licenciatura de Escultura.

Entre os primeiros curiosos, estava o João Duarte.

A medalha situava-se agora entre a ordem e a desordem, constituindo-se já como um instrumento de uma nova sociabilidade, com limitações e oferecimentos.

114º Aniversário da Câmara Municipal de Loures

114º Aniversário da Câmara Municipal de Loures

Do emaranhado de experimentações iniciais ressaltavam agora, de uma forma mais ou menos clara, as primeiras propostas concretas realizadas ao longo da última década – José Aurélio, Irene Vilar, José Rodrigues, Charters de Almeida, José João Brito ou Clara Menéres aventuravam-se a desbravar caminho, entre tantos outros.

Aparentemente, a medalha “jogava-se” com uma realidade que se regia por regras convencionais, convencionadas e racionais, provavelmente razoáveis e aceites por todos os intervenientes. Mas no João gerava emoção, excitação e fascínio.

Apesar do seu regramento, a medalha manifestava-se imprevisível, abria uma brecha, um intervalo no quotidiano, no “sério”, abria um leque de possibilidades, um tipo moderado de loucura, que determinava a carga intensa e múltipla de significados que se propunha desenvolver.
Transcendia a finalidade e o sentido comemorativos, conferindo-lhe uma carga “festiva”.

De “menino bonito” a “enfant terrible” da medalhística portuguesa, faz parte da sua história por representar uma conquista fundadora. Só por isso tem direito ao seu lugar.

De ano para ano, João Duarte afirma o papel de mestre que lhe cabe como medalhista maior que é, como artista que assume de corpo inteiro o lugar que lhe compete, cuja obra desenvolveu, repartiu e frutificou neste esplêndido conjunto de medalhas que agora nos apresenta.

O carácter de ficção é um dos elementos constitutivos da obra de João Duarte.

Individual Exhibition in Medialia...Rack and Hamper Gallery in New York U.S.A. (2012)

Individual Exhibition in Medialia…Rack and Hamper Gallery in New York U.S.A. (2012)

É coisa muito séria e necessária, além de ser reclamado como um “direito de autor”.

Os jogos e os “brinquedos” fazem parte da vida do João tanto quanto ele vive num mundo de fantasia, de encantamento, de alegria, de sonho, onde realidade e faz-de-conta se confundem. “Brincar” está-lhe na génese do pensamento, da descoberta de si mesmo, da possibilidade de experimentar, de criar e de transformar o mundo.

Enquanto o “jogo” dura, as regras que regem a realidade quotidiana ficam suspensas. E é assim que tem de ser.

O João é o medalhista que brinca. O Homo Ludens de Huizinga que aprimora a capacidade lúdica como uma categoria absolutamente primária, tão essencial quanto a fabricação do objecto ou o raciocínio que lhe antecede.

Dá forma a mentefactos, objectos ou representações mentais de coisas, situações, ocorrências externas e vivências interiores conscientes ou emocionais.
A par dos avanços técnicos, estético e até culturais que materializou, o que mais impressiona é que ainda hoje, mais de duas décadas passadas, quando tudo mudou, o João se mantém firme, testemunhando uma vanguarda que o tempo não apaga.

João Duarte - Escultor Medalhista

25 de Abril (1986)

A sua obra tem sede própria – ensaia composições, recorre a materiais variados, aplica a pluralidade das cores.

Misturando o bronze com outros materiais, cria peças com um novo sentido para o fruidor, podendo este intervir, desagregando e reconstruindo o objecto, como se de um puzzle se tratasse.

A medalha apresentava-se como um campo cada vez mais complexo e fascinante, com maior ou menor nitidez, maior ou menor ocultação. Uma aparência entendida como aquilo que parece ser, mas que possibilita qualquer coisa de diferente e até de oposta.

Na década de 90, logo após a aposentação do Professor Hélder Batista, assume a regência da cadeira de Medalhística na então Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e traça o rumo para as gerações vindouras. Um rumo que convoca de imediato duas premissas de base: a diferença e a complementaridade.

Uso, transformação, recriação – o abandono de preconceitos amarrados a uma noção erudita, elitista, virtuosa e redutora da medalha.

A estandardização, aos poucos, dá lugar à aspiração de originalidade. A busca de objectividade extrema abre lugar à inquietação da subjectividade que determina a sua carga intensa e múltipla de significados – a produção de sentido.

Every Hour is not the Next (1996)

Every Hour is not the Next (1996)

João Duarte levou as velhas e novas gerações de escultores a interessarem-se pelo estudo da medalha enquanto obra de arte, inculcando-lhes a ideia de liberdade de criação de um objecto que pode ser manipulado de uma forma diversa, não forçosamente como sinal comemorativo de algo, mas sim, como objecto com lugar próprio e bem definido no campo da universalidade da arte.

Eficiência e honestidade. A dupla face do João. Conta o que está e os que estão e à sua volta está uma “movida” imparável que lhe estimula a criatividade. Alimenta-os e alimenta-se deles.

Com o VOLTE FACE – Medalha Contemporânea (actual Secção de Investigação que coordena na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa) comemorou já as bodas de prata.

Verdadeiramente inovador, medalhista de referência, João Duarte criou como ninguém antes nem depois, um outro estatuto para a Medalha, integrando-a de uma forma definitiva no panorama das artes plásticas portuguesas.

Adoptando uma perspectiva ampla, nas suas variantes ideológica, formal e pedagógica, que lhe permite melhor agarrar a complexidade e heterogeneidade do campo operativo, não corre riscos de se perder num horizonte sem fronteiras mínimas, recorrente a pequenas imitações, simbólicas ou padronizadas de multiplicação ad infinitum.

Abrir caminho é tarefa para os audazes. E o João faz parte dessa classe “dirigente” que olha para a frente e projecta o futuro.

Nos últimos anos confirmou-se a consagração que há muito vaticinámos: em 2010, foi distinguido no 31º Congresso Mundial da FIDEM pela sua contribuição excepcional para o incremento e divulgação da medalhística; em 2011, com o “J. Sanford Saltus Award”, prémio mundial atribuído pela American Numismatic Association, equivalente a um Nobel da Medalhística; em 2012, criou a medalha anual do British Museum; e em 2013, foi finalmente homenageado com uma obra monográfica dedicada aos seus 30 anos de produção medalhística e numismática, há muito desejada.

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Medal of Honor “Medallist Honoris Causa” Bulgária (2014)

Medal of Honor “Medallist Honoris Causa” Bulgária (2014)

Em 2014 em reconhecimento do seu trabalho de excelência, no campo da medalhística, na sessão de entrega dos prémios da 33º Congresso Mundial da FIDEM realizado em Sófia, na Bulgária, foi-lhe atribuído a Medal of Honor “Medallist Honoris Causa”; ainda em 2014 recebeu do MAC – Movimento Arte Contemporânea o prémio Personalidade Cultural do Ano.

Costuma definir-se como o homem a quem “tudo apareceu no tempo certo”, mas nós sabemos que tudo lhe apareceu pelo muito investimento artístico, pelo muito investimento humano.

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Álvaro Lobato de Faria

Diretor coordenador do Movimento Arte Contemporânea, professor, faço palestras, conferências, curadorias e crítica de arte em Portugal e no estrangeiro com incidência no mundo lusófono.
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