Mille et un je de Mariem Mint Derwich

Mille et un je de Mariem Mint Derwich

3 Outubro, 2017 1 Por Luisa Fresta

“Nós, mulheres, estamos sempre sob a sombra da lâmina:
impedidas de viver enquanto novas, acusadas de não morrer quando já velhas.”
Mia Couto, A Varanda do Frangipani

 «Mille et un je» [de Mariem Mint Derwich; textos que dão voz ao silêncios femininos]

Descobri esta autora através da recomendação de um intelectual mauritano, um amigo que muito prezo e que tive a honra de conhecer num inverno rigoroso, no tempo de infinitas possibilidades, quando começámos a ser jovens e a nossa indumentária se resumia a três pares de calças jeans compradas numa feira qualquer e a algumas t-shirts manhosas.

Volvidos trinta anos, quando nos começámos a sentir mais confortáveis na pele de jovens veteranos, procurei descobrir, com a ajuda deste amigo, o que significava ser Mulher no seu país, na sua cultura. De imediato me recomendou a leitura da obra de Mariem Mint Derwich, cronista, jornalista e poetisa da Mauritânia de reconhecidos méritos e mulher de coragem ímpar, aquela que é designada afetuosamente no seu país como “Notre Derwichette Nationale”. Assim, fui-me familiarizando gradualmente com os seus textos e por uma série de felizes acasos acabei por aproximar-me também, sob vários ângulos, da complexa e rica personalidade da autora que dá voz aos silêncios femininos.

Muitos dos seus poemas foram sendo veiculados anonimamente ao longo do tempo através do seu blogue, segundo a própria, até ao dia em que resolveu assumir a sua autoria e a sua “maternidade”. São textos densos e vivazes que carregam memórias e fraturas impossíveis de ignorar, sempre na perspetiva feminina e dando voz àquelas que a não têm, embora seja “por Elas” e “para Elas” que nascem estes textos, ora em prosa, ora em poesia, nos quais todas as Mauritânias e todas as Mulheres estão representadas em fragmentos de discurso poético e retratos de vivências transversais.

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Mariem Mint Derwich é fruto de uma bela amálgama de culturas, de exílios – termo e conceito omnipresente na sua obra – e de uma capacidade invulgar de fazer a síntese de todas as suas influências e integrar no seu dia-a-dia o melhor de cada mundo que lhe foi dado observar e viver, construindo um território de paz, de reflexão e diálogo ecuménico, cívico e político (intercultural e transgeracional) acessível a todos os seus leitores e leitoras.

Mariem Mint Derwich

Mariem Mint Derwich – © Ely Barick

Em «Mille et un je» todas as Mulheres têm… todas temos um espaço. As mauritanas, bem entendido; mas, muito para além das mulheres do seu país, Mariem estabelece laços intangíveis com todas as outras: as que vivemos, as que sentimos, as que calamos ou consentimos, as que não têm opção, as que foram objeto da escolha de terceiros.

A nossa voz é ouvida e ampliada, percetível, envolvida numa roupagem poética tecida persistentemente através das memórias cruzadas de mulheres e meninas num universo em que os seus desejos e as suas opiniões são frequentemente ignorados, escamoteados. Mulheres que se movem como nuvens, pequenos fantasmas sem consistência nem cheiro, que se atravessam como se atravessa o vento. Nesta obra a autora reivindica uma expressão feminina sem hastear bandeiras panfletárias, aponta caminhos, desvenda mistérios e desejos, desmistifica tabus.

E essas mulheres, reveladas por Mariem, tornam-se furacão, turbilhões e tornados, tempestades tropicais e vendavais. Elas deixam de ser invisíveis no momento em que as suas vozes se unem numa espiral de rebeldia e exprimem desejo, reclamam espaço e terra fértil para se semearem e se perpetuarem em outras dimensões e com outra amplitude.

Mariem divide o seu livro em vários capítulos e, como num jogo de espelhos em movimento, a figura feminina desdobra-se e multiplica-se: Je/Tu/Elles/Nous. Ela fala na primeira pessoa mas também reclama a presença do “outro” chamando-o a atuar como ouvinte e como refletor da sua própria identidade, um destinatário que parece nem escutar, que resvala pela indiferença, confrontado com um diálogo incómodo ou sentido como invasivo, que é, na verdade um monólogo, mas também uma oração de revolta e de amor. Mas o que querem afinal, as Mulheres, quando os seus sonhos nascem com asas cortadas?

A autora narra as amarras sociais e familiares que enclausuram as Mulheres e denuncia, (Elles) com palavras límpidas  e certeiras, a espessura e a crueldade dessas camisas-de-forças culturais e ideológicas a que muitas foram votadas. Em “Elles”, Mariem conta-nos também histórias de volúpia e de expiação, numa língua de Mulheres em que muitos retratos nos são mostrados: mulheres fanáticas, mortas por dentro e prisioneiras de si mesmas, mulheres que renegam o seu corpo, que se negam à vida e à beleza, simultaneamente vítimas e carrascos; a violência contumaz contra mulheres é também explicada não raras vezes como uma forma distorcida de amor. Esta praga social e epidémica conta frequentemente com o mutismo cúmplice ou complacente da própria família; um tema grave e delicado com consequências nefastas, sobre o qual a autora se debruça incessantemente.

Mille et un je de Mariem Mint Derwich

Mille et un je de Mariem Mint Derwich

A poetisa, como observadora privilegiada da natureza humana, partilha também com o leitor testemunhos emotivos “de” ou “sobre” Mulheres, acerca dos seus desejos e cedências, da sua solidão e reclusão: a mulher agonizante que se revela no momento da partida, a jovem mãe, discretamente bela e desejável, impedida de celebrar a sua feminilidade, confinada a uma viuvez precoce e ao estatuto que lhe é inerente: Elle a cette beauté timide des femmes qui ont enfanté (¹).

Aprendemos nestas linhas as “virtudes” que lhes são ensinadas, o valor supremo da paciência e da aceitação da espera, o discernimento que conquistam palmo a palmo e por sua conta, a duras penas. Mas como esses moldes claustrofóbicos nos formatam a todas, em maior ou menor grau, é também em “Nous” que entendemos que o isolamento não nos pode nunca ser alheio e que o sofrimento que presenciamos fez, faz ou fará parte das nossas vidas, pela responsabilidade que cabe a cada uma de nós, no tempo que nos cabe viver. “Nous” é também um relato pungente sobre as cicatrizes que advêm da educação, sobre pudor desajustado como uma forma de submissão. O sofrimento passivo e a aceitação sem questionar parecem ser o único destino viável de mulheres e crianças educadas num quadro que a autora descreve como “miséria sentimental”; é difícil proporcionar uma educação baseada no afeto quando não se conheceu nem remotamente esse afeto numa fase precoce da vida.

Por estas páginas passam palavras plenas e redondas impregnadas de sensualidade e de sensibilidade, no entanto contidas numa estética discreta; são palavras seguras, ora serenas como uma leve brisa ora potentes como um chicote que assobia no ar. Elas trilham um caminho penoso numa terra árida e escrevem notas musicais em vozes mudas de silêncio e desesperança. Inscrevem céus em olhares vazios e novas fomes em ventres secos e inférteis. Mariem vê, muito para além do horizonte, mundos ocultados por muros de indiferença, conta-nos dos medos e as das esperanças vãs, dos sacrifícios inglórios, de areias e de desertos íntimos. Entre murmúrios e incêndios há uma dor latente, constante, mas também uma busca incessante de luz e a consciência progressiva do corpo e do amor carnal, numa lógica de autonomia assumida como uma vitória, um espaço conquistado ao vazio.

Uma história começa pelo princípio: a autora entra assim na sua narrativa pela infância, numa tentativa de se reconciliar com o passado e de restaurar memórias estilhaçadas pela violência e pelos silêncios impostos, pelas palavras abafadas pelo tempo. Fala-se de amor, de jogos amorosos e de doces demoras, da antecipação do prazer; fala-se de recordações, quiçá redesenhadas pelo inevitável distanciamento, de flashes de memórias felizes, de ternura e de agonias. Lemos que é preciso a cada instante recolar os cacos, recomeçar, consolidar fraturas. Há uma assunção de dualidade permanente: entre quem vive e quem observa, entre quem fala e quem escuta… uma procura de autoaceitação e de descontaminação dos locais, de sublimação das recordações mais sombrias.

A poesia evoca as Mulheres e as suas revoltas privadas, os seus conflitos, a sua anuência como estratégia de sobrevivência, as suas cicatrizes e ulcerações. A autora traz consigo todas essas vozes cujo timbre se encontrava adormecido e a figura feminina intemporal é reabilitada com cores vivas e cheiro humano. Este universo feminino é plural e inclusivo, não existem barreiras entre as palavras, não existem fronteiras entre as exclusões.

Mariem Mint Derwich

Mariem Mint Derwich – ©Daouda Corera

Pelas minhas mãos passam também palavras que cantam culturas diversas, numa perspetiva abrangente, com uma força que nem o céu nem o mar limitam, fruto de mestiçagens várias, culturais e étnicas, de viagens.

A alusão ao outro, a idealização da pessoa amada e a construção de crenças baseadas nessa interpretação estão também bem patentes nesta radiografia de sentimentos com a assinatura inequívoca de Mariem Mint Derwich, configurando assim uma enorme regularidade que permite uma aproximação ao seu universo poético, díspar e versátil, embora patenteando uma notável homogeneidade.

Para além do texto poético há também lugar para pequenas notas (notules), textos sintéticos em prosa que incluem reflexões e considerações, todas elas em torno da condição das Mulheres. A autora interroga-se nomeadamente sobre a manipulação social de que as mulheres são objeto e as diversas faces da feminilidade. Ela lembra a sua Nouakchott com nostalgia mas com revolta explícita. A dúvida é apresentada como pena máxima, geradora de angústias várias, um caos que só Deus desata.

Nas suas notas Mariem aponta o dedo à hipocrisia social e à pseudo moral falaciosa, sobretudo em relação às manifestações de afeto fora dos laços sagrados do matrimónio. Por aqui passam igualmente experiências relatadas com humor e fineza sobre as semelhanças e as disparidades entre homens e mulheres, percebidas e analisadas por jovens de ambos os sexos; a amizade amorosa, a necessidade provável de um contexto afetivo que dê corpo e consistência a uma aproximação sexual são vistas à lupa, sem tabus nem ideias pré-concebidas. Que saberão os homens do encontro das almas, de fusões espirituais? Esta é uma das questões à qual cada leitor/a procurará responder consoante as suas próprias referências.

Como enquadrar o desejo feminino dentro de uma sociedade com rígidos e notórios padrões morais?

Mariem propõe-nos a todos, homens e mulheres, uma leitura comprometida com as grandes questões do ser humano. Uma leitura atenta dos olhos das Mulheres e das suas expetativas em relação à própria vida, uma aprendizagem de ser-se humano, no feminino. Enfim, embora a obra cative, desde logo, pela vertente estética, ela oferece muito mais do que uma leitura: trata-se de um percurso iniciático e apaixonante pelo universo feminino, tendo a Mauritânia como pano de fundo, mas extrapolável para todos os outros mundos.

(¹) Mint Derwich, Mille et un je, 2014, p. 92

 

Luisa Fresta
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Luisa Fresta

Escrevo crónicas, contos e poesia. Ensaio palavras entre linhas e opino sobre cinema, preferencialmente africano e lusófono. Semeio letras, coleciono sílabas e rumino ideias.
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