Modernismo Brasileiro no Museu Colecção Berardo

Modernismo Brasileiro no Museu Colecção Berardo

30 Outubro, 2017 0 Por Rui Freitas

Sob a curadoria de Regina Teixeira de Barroso, o Museu Coleção Berardo apresenta-nos a exposição itinerante, “Modernismo Brasileiro na Coleção da Fundação Edson Queiroz”.

O visitante é convidando a uma “viagem” pelos movimentos Modernistas no Brasil, sentindo a forma como a arte, sobretudo a pintura evoluiu desde os primeiros passos, no início dos anos 20 do século XX até aos concretistas do Grupo Ruptura e ao afirmar, no início dos anos 60 do século passado, do abstracionismo informal.

Organizada de forma cronológica, como se pedia a este tipo de apresentação, a primeira obra, Duas Amigas, (1917-18) de Lasar Segall à entrada da primeira sala – batizada como Reinventando a Pintura, – revela-nos uma aproximação ao Cubismo pelo claro recurso à geometrização dos planos.  Este novo apelo vanguardista foi igualmente visível nas obras (entre muitos outros) de Flávio de Carvalho, Anita Malfatti, Ismael Nery, que mais tarde se aproximaria do Surrealismo, Vicente do Rego Monteiro e Victor Brecheret, aqui presentes.

LASAR SEGALL Lituânia (1889) – Brasil (1957) Duas amigas, 1917-18 óleo sobre tela

Na sua quase totalidade os artistas desta geração fizeram os seus estudos na Europa, sobretudo em Paris e levaram para o país uma nova abordagem estética e filosoficamente renovadora. Com a Semana da Arte Moderna realizada em 1922 no Teatro Municipal de S. Paulo, lança-se o edifício do modernismo, que vinha despontando já há alguns anos, em articular desde 1917 com a muito polémica exposição de Anita Malfatti.

Como em todos os Modernismos, o sentimento dominante era o rompimento com o academismo tradicionalista e com a cultura dominante. No Brasil em particular, a rejeição do tradicionalismo cultural esteve associada a uma vontade clara dos artistas em aproximarem-se da cultura europeia, ela sim, conotada com o progresso, ao mesmo tempo que revelavam uma urgência na criação de uma identidade artística nacional.

ISMAEL NERY Brasil (1900-1934) Figuras sobrepostas, c. 1922 Óleo sobre cartão

Esta nova perspetiva revelava-se, conforme os artistas, tanto na forma e na estética como na abordagem aos conceitos. Mais simbolista, e muitas vezes mais crua, nuns casos; estilização ou mesmo distorção da figura humana e dos planos em geral com o recurso à geometrização, ou a pontos de vista absurdos, noutros; o uso da cor em “excesso” e muitas vezes distorcendo a cor natural, para uns; o uso dos tons pastel em toda a tela para outros; e em alguns, o uso intencional do contorno das formas, erradicado no Barroco, e de um modo exagerado.

Reinventando o Brasil, Retorno à ordem, Figura não figura, O Pós-Guera, Abstração Geométrica, Grupo Ruptura, Grupo da Frente e Neoconcretismo e Anos 1960, são os nomes dos capítulos cuidadosamente escolhidos que se refletem nos nomes dados às diversas alas por onde evolui esta História.

Reinventando o Brasil, reflete uma apetência em muitos artistas, de uma demanda mais intencional por uma identidade nacional – que já se vinha notando desde a segunda metade do seculo XIX fruto da independência do país (1822) – mas que toma, no início do século XX, uma forma mais identitária e menos poetizada. Muitos artistas escolhiam nesta fase os temas socias e a pobreza do povo, mas também as “mulatas” e a mestiçagem; as festas populares e as favelas ou imaginário indígena como identidade brasileira. Nesta ala podemos apreciar obras de Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti e Cândido Portinari.

EMILIANO DI CAVALCANTI Brasil (1897-1976) Mulata com flores, 1936 Óleo sobre tela

Em Retorno à Ordem, presencia-se um acalmar dos espíritos mais inquietos e caóticos, parecendo aceitar como conquistada uma ordem no Modernismo.  Já ultrapassados os experimentalismos que no início funcionaram como declaração inequívoca da rotura, dedicam-se mais à exploração das possibilidades da cor per si determinando a volumetria e a perspetiva tanto por contrastes quanto por sobreposição e transparências, muitas vezes de cores intensas e inverosímeis.

ALBERTO DA VEIGA GUIGNARD Brasil 1896-1962) Balões, 1947 Óleo sobre madeira

A criação em 1947 do Museu de Arte de São Paulo e em 1948 dos museus de Arte Moderna também em São Paulo e no Rio de Janeiro, (que para além da sua função natural, ofereciam cursos de arte adequados às novas abordagens), acrescentada da I Bienal de São Paulo em 1951, aconteceram no mesmo arco temporal de uma mudança que abarcava o fim da Segunda Guerra Mundial, e o fim da ditadura de Getúlio Vargas (1945).

Toda esta conjuntura, mostrava que, perante as radicais mudanças nos cenários social e humanitário, nacionais e internacionais, os artistas brasileiros estavam preparados para seguirem em frente, refletindo, como sempre nas artes, as convulsões do mundo à sua volta.

CANDIDO PORTINARI Brasil (1903-1962) Colhendo batatas, década de 1940 Óleo sobre tela

As alas Figura, não figura e O Pós-guerra levam-nos ao caminho em direção ao Abstracionismo, que até então não tinha sensibilizado os artistas brasileiros, e sentenciado no Abstracionismo Geométrico representado na ala com este nome.

Os primeiros passos dados nos finais da década de 40 do séc. XX, apresentam-nos ainda um abstracionismo tímido a vacilar entre o figurativismo não formal e um abstracionismo geométrico aqui visíveis nas obras de Alfredo Volpi, Antônio, Bandeira, Bruno Giorgi, Ione Saldanha, José Pancetti, Lasar Segall, Maria Helena Vieira da Silva e e Maria Leontina.

Devem-se em parte ao romeno Samson Flexor em São Paulo e ao casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, no Rio de Janeiro que agregavam em seu torno grupos de jovens sedentos da experiência destes imigrados da guerra, os avanços nesta nova direção estética e formal.

Esta linguagem conhecida como Abstracionismo Geométrico tornou-se realmente representativa, no início da década de 50 do século passado, muito em parte impulsionada pelos prémios da já referida I Bienal de São Paulo em 1951 e por artistas independentes como Ruben da Valentim, Ivone Saldanha, Milton Dacosta e Willys de Castro.

JUDITH LAUAND Brasil (1922) Concreto 144, 1959 Guache sobre papel

Em 1952 Waldemar Cordeiro formou em São Paulo o Grupo Ruptura que clamava por uma arte livre de qualquer gestualismo, contra qualquer figurativismo e isenta de subjetividade. Nesta ala vemos uma arte baseada nos princípios matemáticos da geometria e usando apenas as cores primárias, obras arte, como os autores afirmavam, produto de uma “ideia” matemática.

Deste grupo, temos aqui presentes Hermelindo Fiaminghi, Judith Lauand, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto e Maurício Nogueira Lima.

Ivan Serpa formou no Rio de Janeiro em 1954 o Grupo Frente, – ala Grupo Frente e Neoconcreto – (dos quais temos os escultores Amilcar de Castro, Franz Weissmann e Abraham Palatnik), que embora partindo dos mesmos princípios, assumia perante o Grupo Frente diferenças programáticas proclamadas no Manifesto Neoconcreto publicado em 1959 e assinado por Amilcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis.

AMILCAR DE CASTRO Brasil (1920-2002) Sem título, Ferro

Este grupo contestava o excesso racionalista do Grupo Frente, afirmando que a geometria seria “apenas” um instrumento catalisador da criação intuitiva.

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Sérvulo Esmeraldo Brasil (1929-2017) E7521 (Vermelho), 1975 Madeira, Cartão, Algodão e Acrílico

Nos Anos 1960 a Abstração Informal afirmou-se ultrapassando qualquer réstia de convencionalismo e formalismo, tanto nos motivos e na estética, como nos materiais e mesmo nos suportes, em harmonia com os movimentos europeus e abrindo de para em par a discussão sobre o que é arte ou como propôs o filósofo norte-americano Nelson Goodman (1906-1988): Quando é Arte?

 

Inaugurada a 26 de outubro e patente até 11 de fevereiro, no Museu Coleção Berardo

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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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