Miguel d'Alte

Miguel d’Alte 1954-2007_ Retrospetiva(s): Capítulo VII na SNBA

14 Abril, 2018 0 Por Rui Freitas

Miguel d’Alte 1954-2007_ Retrospetiva(s): Capítulo VII é o culminar de um projeto de cinco anos conduzido por Helena Mendes Pereira e que tem como principal objetivo gravar definitivamente o nome de Miguel d’Alte, o “Pintor Maldito” na História da Arte.

Pormenor da sala

Este trabalho resulta de uma profunda investigação não só à arte, mas também à vida do artista e inclui toda a documentação recolhida, com tudo o que ele escreveu e tudo o que sobre ele foi escrito durante a sua curta e tragicamente interrompida vida.

O projeto, que já desde 2008 investigadora e curadora, desenvolvia esforços para concretizar, avançou em 2013, recuperado que foi, um contacto de 2009 com Manuel Tavares Correia, o maior colecionador de Miguel D’Alte, possuidor de cerca de cento e cinquenta obras do artista. Este espólio viria a ser responsável pelo maior corpo de todas as exposições deste ciclo de homenagem.

S/Título, Técnica mista s/papel reciclado 65×49 (1997)

Contactou ainda elementos da sua família e pessoas próximas.
Foram então idealizadas sete exposições em sete locais diferentes de norte a sul do país, sete locais que de algum modo fizeram parte em algum momento, da vida do artista e também a publicação de dois livros.

S/Título, Aguarela s/papel reciclado 24,5×19,5 (2007)

Ao contrário do que possa imaginar-se, não se trata de uma exposição itinerante, uma vez que, diferentes em filosofia, cada uma teve uma específica seleção de obras, sempre que possível pertencentes a colecionadores locais ou de algum modo relacionadas com o local.

Em todas as cerimónias de inauguração, houve momentos musicais (e também poesia) com um grupo residente de músicos que interpretam música de Zeca Afonso, que o artista admirava e do qual foi aluno em Moçambique.

S/Título, Técnica mista s/tela 150×200 (1996)

A primeira exposição deste ciclo, realizou-se em 2016 na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia, cidade onde o artista faleceu, na tarde de 24 de dezembro de 2007, colhido por um comboio.

Nesse mesmo dia 9 de abril de 2016, foi lançado Miguel d’Alte 1954-2007 Catálogo Raisonné, onde estão catalogadas cerca de 1200 obras entre pinturas, desenhos, objetos diversos, catálogos, fotografias e textos do artista; textos publicados sobre ele em vida e artigos por autores convidados a escrever sobre ele.

Janela para uma dimensão íntima, Óleo s/tela 65×49 (2001)

A segunda, ou o Capítulo II realizou-se no Fórum Cultural de Vila Nova de Cerveira, onde viveu e onde estão depositadas as suas cinzas.
O Capítulo III realizou-se em Braga, a cidade natal do pintor no Museu Nogueira da Silva.

Seguiram-se Figueira da Foz, no Centro de Artes e Espetáculos e a Casa das Artes em Tavira, onde o artista já expusera por três vezes.

S/Título Acrílico s/tela 80×120 (2007)

O Capítulo VI realizou-se na cidade do Porto, na Fundação de Escultores José Rodrigues, cujo fundador (falecido) o mestre José Rodrigues possui o último trabalho inacabado do artista.

Esta exposição, teve uma sala dedicada aos trabalhos dos dois artistas expostos como num diálogo.
O VII e último capítulo de Retrospetiva(s) está agora e até dia 30 deste mês de abril, patente na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, de que o artista era sócio desde 1982.

S/Título, Técnica mista s/papel com gesso 50×34,5 (2002)

Com o fecho do ciclo foi editado o livro Miguel d’Alte: Palavras escritas à Lua, apresentado na cerimónia de inauguração desta exposição. Prefaciado pelo pintor Jaime Silva e com texto introdutório de Helena Mendes Pereira, o livro apresentado em forma de caderno é uma recolha de textos inéditos do artista.

A presente exposição reúne obras posteriores a 1990, altura em que Miguel d’Alte mudou para Lisboa, onde nasceu o seu filho e cuja obra revela algum apaziguamento. Até então a sua pintura foi marcadamente de um surrealismo e abstracionismo marcadamente “negros” e dramáticos. O surrealismo é também uma constante na sua escrita.

S/Título – Técnica mista s/MDF 40×48 (1997)

Aluno de Álvaro Lapa, nos anos 80 do passado século, partilhava com este a convicção de que as referências não estão no real e uma forte tendência para a reflexão sobre o Cosmos e o intangível, foi-se tornando obsessiva. “O referente situa-se cada vez mais no vazio”

S/Título, Acrílico s/tela (2x) 30×24 (2006)

No período que agora se expõem o artista mantém o pendor entre o surrealismo e o abstrato, em que algum figurativismo surge quase sempre onírico e cosmológico. Percebe-se uma forte ligação entre os extremos do infinitamente grande do cosmos e do (quase) infinitamente pequeno das células, por diversas formas representadas nas suas telas e uma reaproximação ao real.

S/Título, Guache s/papel 34×49,5 (1991)

Em meados da década de 90 nota-se em algumas obras uma aproximação ao cubismo abstrato e até ocasionalmente algum suprematismo.
Um dos pontos mais importantes da exposição, é a colocação de três telas em que há alusão quase simbólica a linhas de comboio, em destaque na ala ocidental do salão.

S/Título – Acrílico s/papel colado em Tecido 135×214 (2001)

Os suportes, que podem ser tela, papel, madeira e até mesmo papel em pasta feito por ele e as manchas de cor tendem, numa maioria das obras, para uma quase neutralidade plástica, representada em azuis, milhares de azuis, em matizados de cinza e “alguns” brancos.

S/Título Técnica mista s/tela 160×200 (1996)

Por vezes pintava sobre tinta já seca e pintava de novo. A cada fase se questionava se a obra estaria pronta e pintava novamente para depois, por vezes, raspar as camadas de tinta que já era uma pasta, para descobrir camadas anteriores e assim a tela se compunha de muitos estados, de muitos momentos assimilados e quem sabe rejeitados, ou reinterpretados.

S/Título, Acrílico s/tela 65×49 (1997)

A exposição está organizada em forma temática, sendo ainda dividida em núcleos por uniformidade de plasticidade.
“Não é cronológica, embora haja, claramente, obras do mesmo período de tempo juntas. Procurei estabelecer uma relação com o salão da SNBA e ligar estes núcleos plásticos e temáticos aos textos”, diz-nos a curadora, em conversa.

A obra de Miguel d’Alte, extremamente rica e heterogénea, tanto em temáticas, quanto em técnicas ou suportes; tanto em assunto, quanto em modelo, retratou sempre um homem em conflito com a existência, um desalinhado e ainda assim um homem que congregava amigos e “gostava de contar anedotas”.

S/Título – Acrílico s/papel 50×65 (1997)

Nasceu em Braga em 1954 e em criança foi para Moçambique. Regressou em 1973; em 1975 expôs pela primeira vez na Galeria O Primeiro de Janeiro no Porto e em 1976 inscreveu-se no Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, que nunca terminou. Em 1978 recebeu o seu primeiro prémio atribuído pelo Ateneu Comercial do Porto ao aluno da ESBAP que no ano letivo anterior se tenha destacado.

S/Título, Óleo s/tela 22×19 (2002)

Os rumos da sua história, os seus altos e baixos, também nos são mostrados pelos seus diversos autorretratos, três dos quais presentes nesta mostra, com particular relevo para o último, produzido no ano da sua morte e que nos mostra um homem velho. Apesar dos seus 53 anos.

S/Título Técnica mista s/tela 160×200 (1998)

Apelidado Pintor Maldito pelo pintor Henrique Silva, seu amigo, num texto póstumo em sua homenagem, expôs dezenas de vezes individual e coletivamente, ganhou diversos prémios e trabalhou com as melhores galerias, mas foi sempre avesso ao aspeto comercial e às lógicas do mercado e quando sentia que tentavam instrumentaliza-lo provocava uma rotura e mudava de rumo.

S/Título, Técnica mista s/serapilheira 130×196 (1999)

Miguel d’Alte era sobretudo um homem livre, “a pessoa mais livre que se possa imaginar”, diz o filho Afonso, citado por Helena M. Pereira.

Presente no Salão da SNBA, está uma instalação em vídeo de Bruno Laborinho, que está a realizar um documentário sobre Miguel d’Alte, que será apresentado em agosto, enquadrado na programação da XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira.

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A exposição está patente até ao dia 30 de abril.

Veja Miguel d’Alte 1954-2007_ Retrospetiva(s): Capítulo VII no Canal YouTube Artes & contextos

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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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