Enviesada Rosa

Enviesada Rosa – Hélder Simbad

31 Julho, 2018 0 Por Luisa Fresta
  • 81
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Poesia Erótica Africana – Prémio Literário António Jacinto, 2017

Esta é uma apreciação informal e empírica, pelo que as afirmações aqui expostas e as reflexões feitas são de carácter livre e fundamentadas apenas na intuição da leitora.
Qualquer semelhança com uma resenha ou uma crítica literária, no sentido académico do conceito, é mera coincidência.


 

Movida sobretudo pela curiosidade, em torno da figura de Hélder Simbad e do Movimento Litteragris (aos quais mais tarde voltaremos), pus-me a folhear — um pouco na diagonal — o livro de poesia erótica africana, como indica o subtítulo. Fi-lo por respeito pela beleza plástica intrínseca das palavras, que merecem ser olhadas — antes de serem lidas — e procurando ter uma visão geral do grafismo, o qual, nunca é, como sabemos, inocente. Descobri então alguns pormenores que se revelaram, mais tarde, relevantes, para complementar a impressão primeira da obra; os poemas, em verso livre, “arrumados” no canto inferior esquerdo, com os títulos estrategicamente colocados no fim dos textos (uma regra condizente, soube-o depois, com os compromissos estéticos do Movimento), a existência de soberbos separadores da autoria de Kidá (reprodução de gravuras) e o aspeto quase austero da capa monocromática em tons de castanho (cor de terra seca e de areia molhada ao entardecer) sugeriram-me que estava prestes a conhecer uma obra de invulgar sobriedade.

Passei, então, à leitura, uma leitura algo lúdica e descomprometida, sem outro intuito que não fosse o prazer da contemplação das ideias e do alinhamento dos textos, ansiosa por conhecer poemas conotados explicitamente com o erotismo africano, em língua portuguesa.

Recuando um pouco atrás no tempo, tinha memória de uma coletânea de poesia erótica intitulada Amor no Meio do Teu Mar, com textos selecionados por António Panguila, editada em 2014, e que incluía poemas de dezanove autores angolanos: Adriano Botelho de Vasconcelos, Akiz Neto, Amélia Dalomba, António Gonçalves, Carlos Ferreira, Conceição Cristóvão, Conceição Neto, Chia KMK, David Capelenguela, Fernando Kafukeno, Isabel Ferreira, João Maimona, João Melo, João Tala, José Luís Mendonça, Lopito Feijó, Manuel Rui, Paula Tavares e Trajano Nankhova Trajano.

Esse livro, tal como Enviesada Rosa, teve uma tiragem de 1000 exemplares, deixando supor que existe um interesse real dos leitores angolanos e dos amantes das línguas e culturas africanas de expressão portuguesa pela poesia de carácter erótico e lírico, que justifique esse número de exemplares numa primeira edição.

Para além dessa antologia, refira-se o livro de José Craveirinha editado pela Texto em 2004 (Poemas Eróticos), um volume que reúne 73 poemas escritos entre 1950 e 1980 e apenas publicados previamente na imprensa, segundo informação de Fátima Mendonça, guardiã do espólio do escritor, citada à época pela agência LUSA.

Sobre Enviesada Rosa, destaco desde logo uma estética própria que corresponde a uma matriz defendida pelo Movimento Litteragris, do qual faz parte o autor, e que, desde há vários anos, atua no campo das Letras com dinamismo crescente e de maneira diversificada. Este movimento é também responsável pela revista literária Tunda Vala, um magazine anual, cuja terceira edição acaba de ser apresentada ao público. Trata-se de um grupo de jovens autores e/ou académicos, que defende um conjunto de princípios estéticos, os quais podem ser consultados no seu manifesto; opto portanto por não me debruçar sobre eles por ora, mantendo o foco na presente obra.

Encontro aqui uma linguagem simbólica com profusão de termos que remetem para Angola, como espaço geográfico e linguístico, de partilha histórica e de vivências. Numerosas são as referências à terra natal, ou às suas diversificadas tradições (sugerindo quase uma delimitação geográfica com um percurso mapeável), criando espaço e ambiente para exaltar a figura da mulher, nomeadamente africana; surge, em cada novo texto, uma envolvência de sensualidade e desejo contido (e simultaneamente transbordante), evocando imagens originais, ora suaves, ora palpáveis e multidimensionais, de um erotismo com cheiro a terra, a rio, a rochedos, a quedas de água e a floresta.

“(…) Miss Cabinda
mwana Cabinda
infinita deusa com rosto de flor
segredo do Mayombe

Derretem-se-te chocolates
águas de Lukola
sobre a pele cristal (…)”

«MILHER IBINDA», pág. 19

As mulheres que o sujeito lírico interpela, nomeia e homenageia são fêmeas explicitamente carnais, corpóreas e felinas; trazem nas mãos e no corpo, na Enviesada Rosa, a promessa de outras vidas e sensações inesperadas. A poesia é exuberante, inserida numa narrativa ousada e firme, consistente, no sentido de conferir visibilidade ao desejo feminino e não apenas à sua feminil densidade como objeto de contemplação e cobiça.

“(…) selvagem e suave me apertaste
e beijo a beijo caminhaste sobre mim (…)”

«NÃO FOI SONHO», pág. 39

Outrossim, em Enviesada Rosa encontramos uma multiplicidade de neologismos, fazendo lembrar Guimarães Rosa, conhecido pela abundância de termos que criou (cerca de 8 mil palavras formuladas ou resgatadas e reunidas num livro da autoria de Nilce Sant’anna Martins, intitulado O Léxico de Guimarães Rosa), ou Mia Couto, que é muitas vezes também assimilado ao autor brasileiro por via, nomeadamente, deste particular. Abaixo menciono alguns casos interessantes do ponto de vista semântico.

  • caranguejando — andando para trás.
  • dàlma — “de alma”, junção de duas palavras através da elisão, sendo que a abolição do apóstrofo está explicada nas opções estéticas do movimento Litteragris.
  • dàmarga — “de” + “amarga”, elisão justificada no manifesto do Movimento.
  • divinolhos — olhos divinos.
  • filhadaputar — prejudicar seriamente, castigar severamente.
  • florivolúpia — uma forma de suavizar o uso do termo “volúpia” associando-o à natureza.
  • kizombandando — andando como que dançando kizomba.
  • kwanzapitalista — kwanza, no sentido, não apenas de moeda de troca, mas de vetor do uma ordem económica e financeira.
  • minhÁfrica — contração de possessivo “minha” com o nome “África”, sem recurso ao uso do apóstrofo.
  • paroutras — contração da preposição “para” com o pronome demonstrativo “outras”.
  • rosapinhos — espinhos de rosa.
  • sobralmofada — sobre a almofada.

Os significados aqui propostos são experimentais e resultantes de um mero rascunho de leitora, um exercício de dedução, procurando desconstruir a teia sólida de artifícios estéticos e técnicos em que estão ancorados os versos de Hélder Simbad. A grande maioria destes novos vocábulos, é, como se observa, de compreensão intuitiva, pelo que carecem de qualquer explicação mais aprofundada; não obstante, parece-me estimulante acompanhar a obra do autor na sua globalidade, bem como a do Movimento em que está inserido, com o intuito de perceber se os mesmos se consolidam na sua escrita ou se apenas surgem no espaço desta obra. Na formação destes contributos do “agrispoeta”, observamos sobretudo a junção de vários termos de categorias gramaticais diversas, ou a conversão de nomes em verbos, o que corresponderia ao processo normal de derivação.

Gostaria igualmente de destacar uma técnica astuciosa que só conhecia pela pluma original de Lopito Feijó, a de dividir palavras em outras duas ou mais, oferecendo leituras polissémicas, e transformando o objeto plano em gravura, cheia de relevo e textura. É um jogo de espelhos sedutor, feito de trocadilhos, se considerarmos que dentro de um poema podem morar outros tantos e que a desfragmentação da palavra conduz o leitor a novas interpretações e experiências. Dir-se-ia que o recurso ao “enjambement” é outra das técnicas que partilha com Lopito Feijó.

Registei os termos a seguir discriminados, alguns dos quais surgem mais do que uma vez na obra, e que são testemunho, a meu ver, de um manejo elegante e subtil da língua, a ponto de extrair dela todo o seu potencial oculto, diria, até ao caroço. Liberdade poética, usada com mestria, com um forte e duradouro efeito visual, bem patente em poemas como «Essa Mulher». [angel & cal, assim dental, cama sutra, dis cursa, é leito oral, eterna idade, fé lina, ful minante mente, imoral idade, mil agres, mordi dela, vibra acção].

“(…) Essa mulher faz mil agres
tem uma língua angel & cal
antes do céu da boca
todo o pecado é manual
todo o pecado é perdoável (…)”

“(…) Essa mulher algema-me com os pés
e dis cursa sua imoral idade
em meus ouvidos
palavra
mordi dela
e mãos de águias (…)”

«ESSA MULHER», pág, 46

Por outro lado, apetece constituir um glossário (não exaustivo) informal [1] como um auxiliar de leitura, em face dos numerosos empréstimos de línguas bantu grafados quase sempre de acordo com as regras comummente aceites e estabilizadas ou em vias de consolidação. A sua presença não dificulta o entendimento global, que se deduz pelo contexto (até porque o autor tem o cuidado de apresentar paralelemente essas palavras em português, em muitos casos); porém, a compreensão plena dos termos, nas suas várias aceções, quando existentes, torna os poemas mais próximos dos leitores que não estejam tão familiarizados com alguns deles. Essas menções constituem também uma agradável forma de embelezar o discurso ao atribuir-lhe uma personalidade própria dentro da alma africana, e seduzem tanto quanto porventura surpreendem ou despertam o leitor para novos paladares.


[1] Glossário: (A maior parte dos termos provém das várias línguas nacionais de Angola. Procura-se aqui desvendar a aceção mais próxima, no âmbito desta obra, numa interpretação pessoal e sem qualquer carácter vinculativo. Salvo exceções, excluem-se referências geográficas como rios, locais turísticos, florestas, etc.).

  • Bakama(s) –organização secreta que se enquadra numa espécie de religião tradicional dos cabindas.
  • Cokwe – etnia (e língua) concentrada sobretudo no Leste de Angola. Os Cokwe destacam-se essencialmente pela sua tradição artística, nomeadamente máscaras e esculturas.
  • Gajaja – fruto de sabor agridoce.
  • Ibinda – língua vernácula, veicular e literária que identifica os naturais de Cabinda e que deriva do kikongo.
  • Jika – bairro de Cabinda.
  • Jinguenga – fruto liso e sedoso (vermelho escuro por fora e branco por dentro), do tamanho e forma aproximados de um kiwi.
  • Kazumbi – alma do outro mundo; espírito.
  • Kianda – sereia.
  • Kintuene(i) – uma das danças tradicionais da província de Cabinda.
  • Kissonde – formiga vermelha de cabeça grande, conhecida pela sua picada muito dolorosa.
  • Koi-san – designação que engloba dois grupos étnicos (os San e os Khoikhoi), que vivem principalmente no deserto Kalahari, mas também no Botsuana e em Angola.
  • Kwanyama – língua falada no sul de Angola e no norte da Namíbia. Os seus falantes pertencem ao grupo étnico Kwanyama, um subgrupo do povo Ovambo.
  • Mandjenvo(u) – maruvo, vinho de palmeira.
  • Mucubais –grupo étnico seminómada (subgrupo dos Herero) que se dedica sobretudo à pastorícia, na província do Namibe.
  • Mulemba – árvore real angolana, que proporciona uma ampla sombra, onde se reuniam chefes e reis.
  • Mwana – filho(a), jovem.
  • Ondjango – casa de conversa, de reunião, de hospedagem, de entretenimento ou tomada de decisões, enfim, lugar de encontro.
  • Samakaka – pano tradicional angolano.
  • Sanga – reservatório de água, que mantém a frescura.
  • Tchikumbi – casa das tintas. Semelhante ao “Fiko”, entre os Nyaneka Umbi. Rituais de iniciação aquando da puberdade das meninas.
  • Tchitundo-Hulu –morro granítico situado na província do Namibe, conhecido pela estação arqueológica de mesmo nome.

Enfim, cremos encontrar nestas páginas algumas marcas de romantismo, apesar de o poeta se perfilar com a corrente surrealista, bem como os signatários da Litteragris.

Queria ainda referir que a menção de autores como Sartre e T. S. Eliot ou a novela Nga Mutúri, de Alfredo Troni, subentende uma clara relação de Enviesada Rosa com a literatura universal e com outros espaços geográfico-temporais: a linguagem poética e a expressão literária dos sentimentos como o amor e o desejo não estão circunscritos a nenhuma comunidade linguística (nem a uma qualquer geração), ao contrário, oferecem-se a um vasto público, pois as fronteiras da palavra são bem mais flexíveis do que as demarcações administrativas, políticas ou culturais.

A propósito de outros horizontes, apraz-me, de igual modo, constatar que o simbolismo de Pasárgada, um tema muito caro a um grande número de autores, não foi esquecido nesta obra; contudo, contrariamente a Manuel Bandeira, que consagrava o local como um lugar idealizado, Hélder Simbad afirma, nos versos finais de «Patriótico Orgasmo» (pág. 56):

“(…) não parto para Pasárgada
a terra é esta
não sou amigo de rei
aqui sofro aqui rio
aqui rio de loucos afluentes (…)”

A biografia do autor está disponível na badana do livro, que se anexa ao presente texto. Resumidamente, Hélder Simbad é um poeta, prosador e crítico literário, professor de literatura africana e cofundador do Movimento Litteragris. Este assume-se como uma agremiação artístico-literária que inclui no seu campo de ação aulas de Literatura e Língua Portuguesa. Trata-se de jovens autores que se uniram em torno de uma poética comum baseada na fusão de correntes literárias angolanas com o surrealismo e o seu manifesto, edições, percurso, bem como o discurso programático, podem ser consultados através da ligação abaixo:

https://www.facebook.com/pages/biz/book/Movimento-Litteragris-531821356866782/

(Recomenda-se ainda, acessoriamente, a leitura de um artigo de opinião assinado pelo escritor e jornalista angolano Isaquiel Cori, com data de 2016, no qual destaca o lançamento da revista editada por este grupo de autores).

Para terminar, permito-me citar a autora do prefácio, Cíntia Gonçalves André (também ela integrante deste movimento literário), que, numa análise muito abrangente, afirma o seguinte:

Clique para Visitar


“(…) Este livro tem uma abordagem, atenta e exaustiva, rica em pormenores interpretativos da líbido. É poesia em tudo, inconformista à norma, subjuntiva a uma curiosa substantivação conceptual, gráfica, intimista, e, no entanto, plural, una à temática, omnipresente a liquidez do sentido e do sentir. Em chão de mar, em voo de gaivota, em proximidade à realidade circundante, é uma obra desordeira, próxima à lente que capta a imagem da mulher e a eterniza. Um olhar dissecante e docemente acutilante sobre as africanas que têm a alma à flor da emoção (…)”.

E termina assim:

“(…) É uma obra que se deve discutir, pois ela é tagarela, inoportuna e corajosa. Num pensamento, as palavras nascem da alma que as escreve, mas se alimentam de quem as lê (…)”.

E está tudo dito. Vamos ler.

Segue-me

Luisa Fresta

Escrevo crónicas, contos e poesia. Ensaio palavras entre linhas e opino sobre cinema, preferencialmente africano e lusófono. Semeio letras, coleciono sílabas e rumino ideias.
Luisa Fresta
Segue-me

  • 81
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

O Artes & contextos usa cookies. Navegando pelo nosso site concorda com a nossa Política de Privacidade