Amadeo de Souza Cardoso no MNAC

Hoje, 100 anos após a sua morte, recordamos a grandiosa exposição Amadeo de Souza Cardoso no MNAC

25 Outubro, 2018 0 Por Rui Freitas
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O primeiro impacto que tive ao entrar no MNAC para percorrer a exposição, Amadeo de Souza-Cardoso / Porto Lisboa / 2016-1916, foi a quantidade de visitantes presentes, na sua larga maioria, portugueses.

A exposição da responsabilidade das curadoras Marta Soares e Raquel Henriques da Silva está digna do artista que expõe e do espaço que a acolhe e bem os merece.

Num trabalho de pesquisa, imaginação e criatividade notáveis, a exposição tenta, tanto quanto foi possível, reproduzir aquelas realizadas em novembro de 1916 no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel no Porto e em dezembro desse ano em Lisboa na Liga Naval, no Palácio do Calhariz. A fidelidade da reprodução, está limitada, ao facto de não haver fotografias nem quaisquer imagens da distribuição das obras nos espaços das exposições originais, para além de que os próprios catálogos eram nominais, e sem imagens. As curadoras recorreram às descrições existentes na imprensa da época e outras observações que ficaram, e na organização dos catálogos, para além do conhecimento sobre a forma como as exposições eram então organizadas e da maneira de pensar do artista, o seu próprio curador e comissário de então. Na época as exposições, ao contrário das fórmulas mais recentes em que se organizam por temática ou cronologicamente, eram organizadas por técnicas.

Amadeo de Souza Cardoso no MNAC

Painel numa das paredes à entrada da Exposição

Assim distribuídas pelas diversas salas ocupadas, temos umas com óleos, outras com aguarela, cera, desenhos e até uma dedicada ao Orpheu, com pranchas elaboradas para o terceiro exemplar da publicação, que não chegou a ver a luz do dia.

São 81 obras do mais importante pintor modernista português, um vanguardista e um experimentalista, desde o início na linha da frente dos seus mais notáveis contemporâneos parisienses, cidade onde despontou, e muito à frente do atraso que reconhecia na arte como na sociedade portuguesas e na esmagadora maioria dos artistas seus compatriotas.

Demorou muitos anos a granjear a merecida notoriedade, que em bom tempo o teria projetado internacionalmente como uma das grandes referências da época e apenas por insistência e persistência da sua viúva, a atingiu já nos anos 50 do seu século. Tarde demais para exercer alguma influência sobre os seus pares, a que a História da Arte portuguesa certamente ainda hoje estaria grata.

Amadeo - Tristezas cabeça c. 1914-15

Tristezas cabeça c/ 1914-15

Amadeo nasceu em 1887 em Manhufe, Amarante, numa família da alta burguesia rural e foi para Paris em 1906, com apenas 19 anos, com a intenção de continuar a sua formação em arquitetura, iniciada na Academia Real de Belas-Artes, em Lisboa no ano anterior. Instalado em Montparnasse, rapidamente sucumbiu aos encantos da arte e da intelectualidade que se respirava no bairro e rapidamente se distanciou do cavalete e do compasso em favor do desenho artístico e em particular da caricatura. É, mesmo assim, reconhecível na sua obra a influência que aquelas disciplinas terão deixado, como marcas para algum geometrismo e para seu caminho até ao cubismo.

Passou naturalmente para a pintura, começando por representar paisagens dos arredores de Paris, inicialmente pouco ambiciosas e revelando algum pendor simbolista, passando até por uma geometrização de motivos de um Naturalismo que acabaria por repudiar.

Durante a sua emigração, conviveu de perto com os compatriotas (bolseiros, ao contrário dele) Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francis Smith, Manuel Bentes e Manuel Jardim, para além de Constantin Brâncuși e Amadeo Modigliani, com quem fez amizade e com o qual em 1911 expôs no seu atelier, revelando já um estilo, dinâmico e colorido, envolto num suave maneirismo e orientalismo.

 Amadeo - La Legende de S Julien l Hospitalier

La Legende de S. Julien l’Hospitalier 1912

Em 1912 publicou o caderno XX Dessins, reunindo 20 desenhos a tinta da china sob diversos temas, com um sentir decorativo e exótico, com influências das mais variadas vanguardas e até de arte africana, e que teve um bom acolhimento tanto no meio artístico como por parte da imprensa dos dois países. Numas férias, copiou integralmente a pincel e ilustrou o conto La Légende de Saint Julien l’Hospitalier de Gustave Flaubert, que não agradou ao autor, mas que veio a tornar-se uma preciosidade.

Ainda nesse ano participou no XXVII Salon des Independents. Em 1912 participou no XXVIII Salon des Indépendants e no X Salon d’Automne no Grand Palais e em 1913 participou no Armory Show em Nova Iorque, a par de Braque, Matisse, Duchamp e de Cézanne, Gaugin e Van Gogh entre outros. No mesmo ano expôs em Berlim no primeiro Salão de Outono, onde já o expressionismo despontava.

Sempre a absorver avidamente influências dos movimentos em que vivia imerso e das expressividades dos companheiros, foi afirmando alguma rebeldia na construção da sua própria linguagem, em elementos gráficos cada vez mais arrojados, embora esteticamente coerentes e elegantes. Enquanto aprofundava o seu sentido ou necessidade experimentalista aproximava-se do cubismo que com Picasso e Braque surgia entretanto em Paris.

Expôs novamente nos EUA no Milwaukee Art Society no Winscosin e antes de, em 1914 abandonar Paris (que acreditava ser temporário, mas onde nunca chegou a regressar) participou no XXX Salon des Indépendents e enviou obras para a exposição da Allied Arts Association em Londres.

Foi com o início da II Guerra Mundial, que voltou para a sua terra, tendo começado a relacionar-se com Sonia e Robert Delaunay, entretanto instalados em Vila do Conde, pelo mesmo motivo, a fuga à Guerra e onde permaneceram até janeiro de 1917. A sua aprendizagem continuou e da afirmação da estruturação cubista, com Eduardo Viana, que não durou muito tempo, aos jogos geométricos cada vez mais complexos, passou para a abstração, sendo um dos primeiros europeus a exprimir o cubismo abstrato.

Mucha c. 1915-16

Mucha c/1915-16

Com os Delaunay e por eles idealizado, fez juntamente com Eduardo Viana, Almada Negreiros, Apollinaire, e vários outros, parte do projeto (que não viria a passar disso) Corporation Nouvelle com as “Expositions Mouvantes” (exposições itinerantes).

Faleceu em 1918, vítima da “gripe espanhola” com apenas 30 anos.

Amadeo foi modernista com tudo o que cabe nesta classificação, como o Fauvismo, Futurismo, o Expressionismo, o Cubismo, o Cubismo abstrato, o Abstracionismo e o Abstracionismo geométrico, reconhecendo-se-lhe até reminiscências cézanianas, – Amadeo foi-as todas. Passou ao lado do Naturalismo a que os companheiros portugueses se entregavam “numa rotina atrasada”, mas experimentou o Pontilhismo, e chegou até a namorar a Art Deco, e por fim até um certo Dadaísmo, mas foi na companhia de Eduardo Viana que se afirmou numa das mais notáveis expressões do Cubismo abstrato europeu, de onde evoluiu inquietadamente até ao Expressionismo.

Amadeo - Caras

Pormenor de uma das salas – algumas das suas Caras

Depois do regresso a Portugal, passou a viver praticamente em retiro, abrindo raras exceções para visitar os Delaunay em Vila do Conde e para as exposições de novembro 1916 no Porto e em dezembro em Lisboa, altura em que fez amizade com Almada Negreiros.

Essas exposições são agora, 100 anos depois, evocadas nas cidades que as receberam – recentemente no Porto pelo Museu Nacional de Soares dos Reis e presentemente em Lisboa no Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado.

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Vida dos Instrumentos

Vida dos Instrumentos c/1916

Amadeo foi sobretudo um modernista. Frenético, purista, arrojado, vanguardista, dinâmico, que pela sua voracidade experimentalista, absorveu referências desde os grandes mestres impressionistas à arte popular, ou às gravuras orientais e até ao desconstrutivismo de conceitos cubista, futurista e abstracionista, dizia de si: “Eu nem a mim mesmo sigo, nem na fatura nem na visão artística (…) tudo o que tenho feito é diferente do precedente e sempre mais perfeito”.

 Amadeo de Souza Cardoso

Amadeo de Souza Cardoso

 

A exposição estará esteve patente no Museu até domingo, dia 26 de fevereiro (de 2016).

 

 

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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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