Koko-di Koko-da – MotelX 2019

14 Setembro, 2019 0 Por Laura Carvalho Torres

Koko-di Koko-da – de Johannes Nyholm

 

Numa visão muito pessoal, o sueco Johannes Nyholm apresenta no MotelX  uma fábula com personagens que parecem saltar de um cartoon, mas absolutamente aterradoras.

A história começa com a morte da pequena Maja (Katarina Jakobson).

Três anos passados os seus pais, Tobias (Leif Edlund) e Elin (Ylva Gallon) permanecem juntos, mas numa relação claramente decadente, e que proporciona algum humor negro à trama.

Decidem ir à aventura, e por vontade de Tobias vão acampar na floresta. Numa viagem atribulada, repleta de discussões e contradições, entram floresta adentro e montam a tenda no primeiro espaço livre que encontram.

Koko-di-Koko-da ©Leif Edlund Tobias-Höiem-Flyckt

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No dia que seguinte, Elin sai da tenda e é abordada por três personagens profundamente oníricas e assustadoras, que na primeira cena cantarolavam Koko-di Koko-da, supostamente uma canção infantil que nos remete ao One, Two, Freddy’s Coming For You, e que abre o pano do sinistro ao filme.

Mog (Peter Beli), Sampo (Morad Baloo Khatchadorian) e Cherry (Brandy Litmanen), com um pitbull e um cão morto são um pesadelo, dos mais profundos, tornado realidade. Eles vão submeter o casal a uma enxurrada repetitiva e persistente de terror e humilhação sem fim, numa visão algo aproximada ao Happy Death Day.

A espiral de repetição torna-se sufocante, e aquele desespero é transmitido ao observador, que ao ver a cena iniciar-se uma e outra vez suspirará “aqui vamos nós outra vez…”.

A mente genial, e louca de Nyholm cria uma teia aparentemente sem fim, que torna a racionalização do filme impossível, sob uma sinfonia de sons aterradores e arrepiantes, a que não falta a clássica caixa de música.

Espetáculos de marionetas compostos por pequenos sketches desenhados manualmente, metaforizam a vida de Tobias e Eli através do recurso a animais num esplendor visual.

Koko-Di Koko-Da ©Johannes Nyholm Produktion

Pulos no assento há poucos, humor absurdo há em quantidade com a perspetiva de “vencer pelo cansaço”. A certo ponto já se torna impossível não nos rirmos do looping da narrativa.

Por entre cenas fortes, gráficas e impactantes, surge por duas vezes de uma forma difícil de enquadrar, um gato branco, mas é ele que leva Elin, num momento de distorção temporal, a assistir a um pequeno show de marionetas. Sugere-nos uma alusão à emblemática obra de Lewis Carrol, sendo que ali é o gato que explica a Alice as regras o País das Maravilhas.

Koko-di Koko-da ©Johannes Nyholm Produktion

Koko-di Koko-da ©Johannes Nyholm Produktion

A última cena leva-nos a admitir que este pesadelo sem fim possa ser o karma a falar mais alto.

Infelizmente, a audiência não ficou rendida.

Uma história difícil de digerir num enredo complexo, que podeia ter sido mais explorada em alguns ângulos,mas que ganha pela riqueza metafórica, distorcida e alegórica com que Nyholm nos brinda.

Mistérios na natureza, caixinhas de música e pesadelos na floresta: Koko-di-Koko-da, uma extravagância para os sentidos.


Koko-di Koko-da no IMDB

 

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Laura Carvalho Torres

Licenciada em História da Arte, apaixonada por arte e fotografia, com o lema: a vida só começa depois de um bom café, e uma pintura de Velázquez.
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