Sintonias Serranas

Sintonias Serranas – Cultura em Rede

4 Outubro, 2019 0 Por Rui Manuel Sousa
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Sintonias Serranas – Cultura em Rede 2019

É mais do que sabido que a música tem um impacto positivo no desenvolvimento cognitivo nos indivíduos que a praticam. Hoje sabe-se que durante uma performance musical coletiva os músicos, ao envolverem-se, são capazes de libertar a hormona “oxitocina”.

A oxitocina é libertada quando num momento de sofrimento recebemos um abraço de alguém, é também chamada de “hormona do amor” por ser libertada durante o ato sexual. A oxitocina também pode promover a socialização reduzindo a aversão a pessoas estranhas e aumentando a confiança, empatia e a robustez de laços afetivos.

A minha conclusão apressada é de que precisamos de mais música no mundo em que vivemos e de todos os benefícios que ela nos possa trazer, a nós como indivíduos, mas principalmente às comunidades onde estamos inseridos.

Sintonias Serranas

Dois jovens músicos tocando Trompete e Trombone de Vara – ©Município de Celorico da Beira

 

Então vamos imaginar as seguintes personagens, todas residentes no mesmo concelho mas que não se conhecem:

  • Afonso, barbeiro há mais de 30 anos, mas que sempre que pode pega na sua concertina, de forma autodidata, e toca umas modinhas;
  • Alice, mãe de três filhos, dona de casa porque lhe fica mais caro ter os filhos na creche, e que passa o dia a cantar-lhes canções achando humildemente que tem jeito para cantar

  • Filipe, estudante adolescente, os pais ofereceram-lhe uma guitarra elétrica e o Filipe gosta de aprender as canções e decorar todos os solos de guitarra da música que o pai ouvia quando era novo.

  • Andreia, universitária, desde muito nova começou a estudar música na escola da filarmónica onde aprendeu a tocar clarinete. Gosta de tocar com a banda filarmónica, mas sonha em ter um grupo pop-rock onde pudesse tocar as melodias que tem vindo a compor sem ninguém saber.

Personagens como estas existem por todas as aldeias e cidades de Portugal, a maioria vai deixar de tocar com o tempo sem sequer se terem conhecido umas às outras. Quanto muito vão continuar a tocar sozinhas em suas casas ou quase sozinhas, porque um instrumento faz muito boa companhia. Esporadicamente talvez tenham direito a um serão musical com os vizinhos ou com amigos músicos, os que conseguiram conhecer, serão tão poucas as vezes, que os dedos das mãos e dos pés bastarão para contá-las.

A não ser que…

Sintonias Serranas

Guitarras eletricas e acústicas – ©Município de Celorico da Beira

A não ser que surjam iniciativas comunitárias apoiadas, capazes de promover o encontro destas personagens de modo a não passarem despercebidas e poderem assim partilhar as suas experiências. Algo capaz de garantir que o legado musical das gerações antigas seja passado às mais recentes e vice-versa, para que se entendam melhor as diferenças e se formem pontes de entendimento baseadas na identidade de cada região, de dentro para fora e de fora para dentro.

Já se vai fazendo qualquer coisa, como exemplo dou o projeto “Cultura em Rede das Beiras e Serra da Estrela”, desenvolvido em co promoção com os 15 municípios pertencentes à Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE), começou em 2017 e está previsto terminar em 2020.

O objetivo do projeto é valorizar os artistas da região das Beiras e Serra da Estrela através da criação de um programa cultural em rede que promova a itinerância de espetáculos pelos 15 municípios, nas áreas da Música, Dança e Teatro. Uma oportunidade para os seus munícipes revelarem o seu talento, de conhecerem novas pessoas, de adquirir conhecimentos e experiências nestes três ramos artísticos.

Para que isto tudo funcione têm que existir residências artísticas para os interessados e alguém para coordenar o processo. Na área musical o espetáculo tem o nome “Sintonias Serranas” e para o acompanhar foi escolhido um músico com experiência, com perfil e energia para transformar as sinergias de todos os participantes num único espetáculo conjunto, o Tiago Pereira.

Sintonias Serranas

Tiago Pereira dando início ao Espetáculo – ©Município de Celorico da Beira

O Tiago é um percussionista com um longo trajeto musical, tendo colaborado com vários músicos/bandas de áreas musicais diversas (já referido no A&c como integrante do grupo Roncos do Diabo). O Teatro é outra das suas paixões, começou como Encenador/Actor no Teatro Rabo de Palha companhia da qual foi fundador, atualmente trabalha com o Trigo Limpo – Teatro Acert. A experiencia acumulada em vários projetos de serviço educativo em que participou, na Bedeteca de Lisboa, no Centro Cultural de Belém, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest, foi por certo uma mais-valia para conseguir levar este projeto a bom porto.

Assisti no passado dia 3 de Agosto em Celorico da Beira, ao espetáculo Sintonias Serranas, onde pude ver o Tiago a dirigir todas aquelas personagens similares às que imaginamos anteriormente, cada uma a emprestar a sua “voz” aos temas desenvolvidos na residência artística por todos, com a sua ajuda e coordenação.

O Tiago começou o concerto sozinho com o seu bombo, se devia funcionar como cama de rede para os mais inexperientes que se seguiam não sei, pareceu-me mais um grito de guerra a invocar coragem e determinação, estando ele seguro de que as havia no seio do numeroso grupo de músicos em palco.

O espetáculo continuou e foi uma surpresa o que se seguiu, por detrás era projetado um trabalho notável de vídeo, da autoria do Pedro Sousa Raposo e da Luísa Neves Soares, feito de propósito para o espetáculo e que funcionava como base da banda sonora, sendo todos os temas do reportório pautados pelas imagens. Espalhados pelo palco estavam as personagens de uma terra real, transformadas numa filarmónica multicor, cheia de instrumentos díspares, clássicos, tradicionais e outros mais elétricos e tecnológicos.

Sintonias Serranas

Plano Geral com o vídeo de Pedro Sousa Raposo e de Luísa Neves Soares, em fundo – ©Município de Celorico da Beira

O Tiago foi um maestro total, não utilizou batuta, nem usou apenas os braços, dirigiu com tudo o que tinha no corpo, tomado por um frenesim constante. Talvez contagiado pelo prazer que emanava daquela gente toda à sua frente e vice-versa.

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A oxitocina deve ter sido muita naquela noite, tenho a certeza que quem participou e quem assistiu desfrutou de vários benefícios para o resto das suas vidas.

Assim foi para o Sr. Afonso que conheceu alguém que fazia parte da tocata de um grupo folclórico de que agora também faz parte, para a Alice que agora canta sempre que pode num grupo de cantares com adufes, e para o Filipe que formou um grupo de pop-rock com a Andreia e mais dois outros “serranos sintonizados”.

Todas as Fotos ©Município de Celorico da Beira
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Rui Manuel Sousa

Musico, entusiasta de cordofones que gosta de falar de música, da sua alquimia e do seu indelével sentido cultural.
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