(Des)construção da Memória

13 Dezembro, 2019 0 Por Rui Freitas

Macau não será “apenas” memória

 

A exposição (Des)construção da Memória, patente no Museu Coleção Berardo, pode à primeira vista, parecer uma exposição de fotografia, mas sendo quase na totalidade composta por fotografias, é muito mais do que isso.

Mas, começando pelo princípio:

Temos dois artistas macaenses, Ung Vai Meng e Chan Hin que comungam um profundo amor a Macau – a sua Macau – e à sua História.

(Des)construção da Memória

Cruz

Ung Vai Meng é artista plástico, com um riquíssimo percurso académico (que passou pelo Ar.Co em Lisboa), com diversas publicações, distinções e exposições internacionais; Chan Hin Io, é fotógrafo, com um percurso artístico pessoal e profissional com diversos álbuns publicados e distinções várias, e com trabalhos publicados, entre outros, na National Geographic, na China National Geographic e na People’s Pictoral.

Ambos profundos conhecedores da História do Oriente e do Ocidente, confessam ter personalidades e vivências muito distintas, que encontram ainda assim, a complementaridade essencial na realização da obra conjunta.

Unidos, talvez pelos caprichos do tempo e pelos cordelinhos da arte, encontraram-se, colecionando, cada um pelos seus meios, marcos de um passado em erosão, do seu território.

(Des)construção da Memória

Templo de A-Ma

Ali, como em tantas outras metrópoles, a inevitável exploração urbanística territorial pela modernidade, vai dando protagonismo a novas construções, alterando a composição e a personalidade de uma urbe efervescente, refém das hormonas do crescimento.

Instalações industriais, edifícios públicos, teatros ou fontanários, marcos de outrora, envelhecidos, e fragilizados, veem-se ensombrados pelos novos atores de aço, carbono e vidro, e sem forças para resistir, vão, longe da vista, caindo gradual e silenciosamente no cruel esquecimento.

(Des)construção da Memória

Fonte de São Francisco de Assis

E a emergência adivinhada, despertou nos espíritos dos dois artistas um apelo para tornarem perene o efémero. Convocou-os para registarem, enquanto está à vista o que sempre esteve, para darem um lugar para lá da memória fugaz, aos sinais vaidosos e aos seus corpos eternos e orgulhosos da História que carregam do mundo que têm para contar. Para que nunca deixem de existir, para que assim, para sempre permaneçam.

E fotografaram-nos. Os dois, formaram o coletivo Yiima e durante dois anos prepararam o que aqui nos mostram e que é uma pequena parte do trabalho realizado ao longo dos últimos dez.

Compuseram quadros de performances em que são eles próprios os atores que recriam e dão vida de verdade, aos espaços que guardaram para nos revelar.

São recantos das cidades, lojas abandonadas ou o próprio interior de habitações de pessoas anónimas, únicas e iguais a tantas outras, tão vulgares e tão singulares que fazem parte da história e do imaginário dos povos e das pessoas sem história. Exibem sinais do tempo e rugas que teimam em fazer esquecer uma juventude distante – como se de outro corpo, outra identidade se tratassem – e vão silenciosamente, cedendo ao moderno e ao global.

São referências de uma Pólis que deu origem ao hoje e que impotentes, cedem ao tempo e caem na indiferença, descartadas e esquecidas, apagadas da vista, e com o passar das gerações, da memória.

(Des)construção da Memória

Central Térmica (entretanto destruída)

Com a sua extinção perdem-se (perder-se-iam) marcas únicas e inimitáveis de uma cultura milenar, paradigmas da multicentenária multiculturalidade oriente-ocidente, espalhadas pelo território, que foi o primeiro entreposto comercial europeu na Ásia.

Alguns dos espaços e estruturas, aqui representadas e preservadas, sucumbiram à erosão do tempo impiedoso e deixaram – desde que este trabalho foi iniciado – de existir. Deixaram, na sua forma física, já que esta obra não permitirá que o tempo, na sua crueldade, as varra da memória, o que transforma as suas fotos aqui presentes, em sinais da emergência de si próprias. E de todas as outras, fazendo desta exposição uma máquina do tempo que nos coloca em lugares de Macau, que daqui a pouco já não existem.

(Des)construção da Memória

Meditação nas Ruínas (Antigo Tribunal Judicial de Base, Macau)

E esta máquina do tempo não é inverosímil como a de H.G.Wells, é, como em todos os outros momentos da História, a Arte.

Não se pense por esta observação, talvez, confesso, um pouco arrebatada, que a sua proposta é saudosista. Não é, nem tão pouco revivalista: é tão histórica quanto contemporânea; é tão pragmática quanto romântica.

É uma voz da consciência coletiva que aceita a evolução, mas recusa o esquecimento. É uma outra forma de escrever a História, uma forma embebida e nascida de uma apurada sensibilidade artística, sensibilidade extremamente recetiva ao simbolismo das pequenas coisas, a uma forma de representar visualmente, o sentido da memória por excelência. Uma História que por artística, é necessariamente filosófica e como talvez a tivesse lavrado Heródoto se este fosse o seu tempo e ele fosse artista e fotógrafo, mais do que historiador e filósofo.

São sobretudo fotografias em grande formato que se mostram ao longo das paredes do piso 0 do museu e são trabalhos fantásticos, tanto do ponto de vista técnico, quanto do ponto de vista estético, mas elas são o meio, o que temos aberto aos nossos sentidos, são retalhos de tempo.

Estas imagens fotográficas, estes “retratos”, não abrangem tudo o que o coletivo Yiima pretende preservar, porque as suas sensibilidades não se esgotam nas duas dimensões da imagem plasmada, e as linguagens e expressões artísticas acodem-se quando os criadores têm mais para dizer, quando têm pensamento filosófico e mensagem a apelar a outra estética. Quando precisam do apoio e da liberdade da forma, e do espaço físico, quando a expressão é também simbólica.

(Des)construção da Memória

Cerimónia de Ícaro

Porque sim, tudo o que nos rodeia é símbolo. É-o em geral – como postulou Peirce, na semiótica, também Locke e até Platão, levando-nos a perceber que, no limite, tudo o que nos rodeia é comunicação – e é em particular nesta exposição.

Desde sempre tão grato a quase todos os criadores, o símbolo é um elemento omnipresente nas culturas orientais e a carga simbólica destas obras é incontornável.

Por isso deram-nos uma performance em vídeo, uma instalação em bamboo inspirada na cúpula do Túmulo Octogonal do Mosteiro da Batalha e diversas esculturas.

(Des)construção da Memória

Julgamento do Pai

São materialização da memória, recolha de pedaços de tempo que não se quer perdido; que não é passado nem presente, é, apenas. Tempo recuperado ao passado sim, mas que não deixou de existir nem ficou por lá perdido, porque Ung Vai Meng e Chan  Hin Lo não o permitem.

Com curadoria de João Miguel Barros, também ele fotógrafo, que viveu em Macau, a exposição estende-se por cinco salas temáticas, num minimalismo formal brilhante e nem as fotos, o vídeo, as instalações ou as esculturas carecem de qualquer comentário individual, antes dispensam tudo o que não seja o seu usufruto pelos sentidos de cada um de nós.

(Des)construção da Memória

Pormenor da Sala “Memória”

Pelo contrário, o verbo que lhe fosse dedicado, para além do silencioso nome atribuído a cada obra e que identifica quanto baste cada local, cada momento, apenas contaminaria a contemplação do pleno de beleza do que se expõe.

É necessário olhá-las de frente, presencialmente, é imprescindível partilhar o seu espaço, no museu.

Assim:

Cada sala tem uma única cor, que nos transporta para o seu significado simbólico, conforme as culturas orientais as consideram (*).

A primeira sala, a “Memória”. Vermelho: a luz quente do Sul.
(O vermelho representa o fogo na cultura chinesa e identifica o Sul. É uma cor auspiciosa que simboliza a sorte, a felicidade e a celebração.)

A segunda “Ritualismo”. Verde: bambu oriental.
(O verde é identificado com a natureza e a ideia de uma certa pureza. Nessa medida não há especiais diferenças entre a cultura chinesa e ocidental.)

“Leveza”, Preto: a água tranquila do Norte.
(Na cultura tradicional chinesa o elemento água é representado pelo preto, e não pelo azul, como
acontece no Ocidente.)

“Cerimónia”, Amarelo: o filho da terra no meio.
(O amarelo era a cor dos imperadores, representando, na cultura tradicional chinesa, o poder, a autoridade e a prosperidade.)

“Paraíso”, Branco: céu ocidental
(O branco simboliza, na cultura tradicional chinesa, o metal, mas também a pureza.)

(*) do catálogo

(Des)construção da Memória

Esboço “santo agustinho”

 

Até 9 de fevereiro de 2020 no Museu Coleção Berardo


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Rui Freitas

Jornalista e Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.
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