Arte Urbana - Street Art

A Evolução da Arte Urbana

7 Janeiro, 2020 0 Por Artes & contextos
Modo Noturno

Com o benefício da visão a posteriori, podemos facilmente categorizar o Impressionismo ou o Expressionismo Abstrato, mas definir um movimento histórico de arte enquanto ele se desenvolve em tempo real, representa um empreendimento mais complexo, porém excitante.

Hoje assistimos ao crescimento da Arte de Rua (Street Art), um movimento tão novo e controverso que a simples designação de movimento suscita controvérsia. O termo Arte de Rua, também conhecido como Arte Urbana, engloba uma série de diferentes modalidades – murais públicos, pintura em spray sobre tela, e até mesmo bens de consumo artesanais.

Com um inicio desordenado e muito além da influência das galerias de cubos brancos – e dos limites legais – a Arte de Rua tornou-se um dos movimentos artísticos mais populares, consistentes e comercialmente mais bem sucedidos a emergir do meio pós-moderno.

As origens

A acessibilidade esteve na essência da Arte de Rua na sua forma mais embrionária, grafitando e etiquetando espaços públicos apenas com o apelido ou o símbolo do artista. A prática permitiu que jovens sub-representados, muitas vezes empobrecidos, fizessem ouvir as suas vozes com apenas uma lata de tinta em spray e um bocado de parede, sem a necessidade de representação em estúdio ou galeria.

Cornbread Tag 1967 por ‘Cornbread’ Darryl McCray (Imagem: WikiArt)

Nos anos 70, a prática do graffiti proliferou nas grandes cidades dos Estados Unidos. O tagging surgiu como uma forma de auto-expressão para jovens muito distantes do mundo da arte e muitas vezes alienados da sociedade em geral.

Darryl McCray, mais conhecido pelo seu graffiti com o apelido “Cornbread”, por exemplo, encontrava-se em detenção juvenil aos 12 anos, onde passou o tempo discretamente a pintar as paredes da cela com a sua assinatura. Após a libertação, resolveu etiquetar as ruas da Filadélfia, usando o meio para declarar amor a uma paixoneta (“Cornbread loves Cynthia”) e mais tarde, para desmentir uma notícia de jornal, segundo a qual ele tinha sido morto num tiroteio de gangues (“Cornbread Lives”).

Enquanto as autoridades da cidade procuravam reprimir aquela forma de arte de guerrilha, os graffiters responderam ao desafio, trocando suas etiquetas simples e assinaturas apressadas por letras mais complexas e virtuosas em cores e formas arrojadas. Com esta nova marca, apelidada de “estilo selvagem”, os graffiters aumentaram a aposta: eles já estavam envolvidos numa prática de alto risco – vandalizando os espaços públicos – e quanto mais arriscado for o local, maior será o prestígio. As letras complexas e interligadas, típicas do motivo wildstyle, tornavam o ato ainda mais difícil e impressionante entre os círculos de arte de rua.

Wildstyle graffiti por Tracy 168 (Imagem: WikiArt)

A transição da graffiti escrita para a graffiti arte pode ser identificada com o desenvolvimento do estilo selvagem, que coincidiu com a comercialização do graffiti e da sua assimilação ao mundo da arte. O artista Tracy 168, um pioneiro do graffiti de estilo selvagem que saiu às ruas pela primeira vez em 1969, viu as suas obras serem abraçadas pelo mundo da arte e posteriormente exibidas no Brooklyn Museum.

Jean-Michel Basquiat, um dos artistas norte-americanos mais famosos do século XX e um protegido de Tracy 168, catapultou o movimento para as galerias. Basquiat começou a grafitar ainda adolescente em Nova York nos anos 70, marcando as ruas com seu próprio credo anti-sistema, “SAMO” (abreviação de “Same Old Shit” – “A mesma velha merda”), que procurou tornar tão omnipresente quanto o logotipo da Pepsi.

“Bird on Money,” 1981, por Jean-Michel Basquiat (Imagem: WikiArt)

Basquiat transportou os seus motivos de arte de rua para a tela e foi rapidamente abraçado pelo mundo da arte pela sua confluência de colagens, graffitis, motivos de banda desenhada, temas mitológicos e narrativas acessíveis. Em 1983 foi incluído na exposição da Bienal do Whitney e em duas exposições individuais no Gagosian.

A Influência da Propaganda

Inspirado pelo graffiti que incendeia as ruas e pela cena artística de Nova Iorque, o artista de rua francês Blek le Rat começou a pintar com spray gravuras de ratos nas ruas de Paris em 1981, com o “rato” como anagrama da “arte” (rat/art) e um símbolo da proliferação da arte como uma praga nos espaços públicos que ele procurava alcançar. Blek le Rat inspirou-se também noutro segmento da história da arte de rua – a propaganda política da Segunda Guerra Mundial, particularmente os desenhos nas ruas das cidades europeias, do ditador fascista Benito Mussolini.

Plaza Hotel and Casino Mural, 2017, por Shepard Fairey (Imagem: Wikipedia)

O estilo gráfico do artista de rua Shepard Fairey também pode ser associado à propaganda – no início da carreira, Fairey marcou as ruas com adesivos com um rosto ameaçador e a palavra ” Obey”.

A seguir, levou o motivo para murais, cartazes e uma série de mercadorias sob a sua etiqueta de moda OBEY Clothing. Na prática, o empreendimento de Fairey é comercialmente muito bem sucedido – a divulgação do logotipo gera intrigas e estimula os espectadores a participarem, comprando e usando o logotipo. Este sucesso comercial, porém, também reifica os objetivos conceptuais de Fairey – explorar a proliferação da publicidade, a forma como os telespectadores atribuem significado aos sinais e fenómenos, e o poder do consumo ostensivo.

A Comercialização

Apesar de muitos artistas contemporâneos desacreditarem a comercialização, os artistas de rua há muito que utilizam os bens de consumo como meio de capitalizar o seu trabalho e torná-lo acessível a um vasto público fora do espaço da galeria.

“Crack is Wack,” 1986, por Keith Haring (Imagem: WikiArt)

Enquanto Basquiat vendia camisolas e cartões postais com imagens do seu trabalho, o seu contemporâneo Keith Haring abriu a sua própria loja, Pop Shop, no centro de Manhattan, em 1986. Através da Pop Shop, Haring ofereceu versões de baixo preço do seu trabalho – camisetas, botões e posteres – a um público alargado que, de outra forma, poderia não participar no mundo da arte. O comércio tornou-se uma forma crucial para Haring alcançar o público ao lado dos seus murais e cartazes.

Como o artista disse sobre sua experiência na arte de rua, “Esta foi a primeira vez que percebi quantas pessoas poderiam desfrutar da arte se lhes fosse dada a oportunidade. Estas não eram as pessoas que eu via nos museus ou nas galerias, mas uma secção transversal da humanidade que atravessava todos os limites”.

Um movimento em formação

Tal como a sua antecessora Pop Art, a Street Art empresta a linguagem visual da cultura de massas para gerar obras de arte que são acessíveis e ressoam para um público vasto – uma virtude que tem resultado no seu boom comercial. Em 2011, o Museum of Contemporary Art em Los Angeles fez a curadoria do “Art in the Street”, que estabeleceu o recorde do MOCA de exposições mais frequentadas da história do museu. Apenas este ano, uma peça do internacionalmente conceituado artista de rua Bansky foi vendida por 10,7 milhões de euros em leilão.

Embora muitos se sintam inquietos com a paixão do mundo da arte pelo movimento historicamente anarquista, os artistas de rua continuam a usar o espaço público e os bens de consumo com o objetivo da acessibilidade. Como Blek le Rat explicou, “A Arte Urbana está aí para ser inclusiva”. Ao trazer o nosso trabalho para as massas dentro da paisagem urbana, nas ruas, estamos a incluir toda a gente”.

 

O artigo original foi publicado @ Canvas: A Blog By Saatchi Art
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Este artigo foi traduzido do original em inglês por Redação Artes & contextos

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